Na margem esquerda do Douro, o turismo suspira pelas estradas vazias. Algumas casas imiscuem-se no xisto e tornam-se visíveis apenas a quem deseja enterrar-se num socalco e permanecer escondido do tempo, vendo as nuvens desenharem-me em luxúria num céu azul, baixo e esquivo. Do lado de lá da divisão territorial, um distrito é um conjunto de concelhos onde as freguesias namoram à janela com a riqueza e, na maior parte das vezes, a pobreza.
Fronteira natural, o rio permanece alheio aos enclaves e entraves, barragens e albufeiras, leitos navegáveis e, nas margens, velhos apodrecidos batéis. De quando em vez, alvos passageiros torram-se ao Sol e à bebida, acenando simpaticamente às eclusas onde empoleirados curiosos observam o erógeno subir e descer de uma maré contrafeita. Na marginal, doceiras deixam a amena cavaqueira com taxistas e transeuntes a quem tentam vender uma mão cheia de rebuçados, para descerem as escadarias de acesso ao cais e, em simpáticos e incisivos comentários, tentam ganhar o dia a dia com a doçaria. Motoristas de óculos escuros ligam o ar-condicionado. Os simulados comboios de visitas turísticas engalanam-se com olhos postos nas velhas locomotivas que, mais acima, vão baforando as minhas memórias de miúdo.
Regresso-me ao plácido e modorrento cantinho, escavado na terra roubada às vides, onde as lavandeiras me vêm visitar com o seu voo rasante e passinhos corridos ao vento parecem saltitos que anunciam o final do Verão.
Esta vertente na destra margem virada a Sul, onde o Sol matura as últimas bolbosas e prenhes uvas tintas, namora o seu empobrecido vizinho. As enormes torres eólicas parecem impelir o movimento do globo terrestre onde me vou entretendo a contar-me histórias que Torga ensinou.
É este, Torga, rude e agreste, que debaixo de um guarda-chuva observa plácido e absorto o horizonte tolhido pela moldura negra sobre um mar de pedras, o seu mar de pedras. Abrigo-me como posso na sua narrativa. Algumas personagens apontam para o fundo do monte onde a estrada rasga as abandonadas caldas e alguém escreveu, em mais do que duas paredes, que o vinho dos ricos é feito com o sangue dos pobres. Parece ironia literária que o seu rosto esteja a olhar as vinhas luzidias e aparadas, ordenadas e escarpadas, de uma instalação turística de várias estrelas. Ouço-o sorrir ironicamente, quase sarcasticamente, quando uma carrinha de caixa aberta, branca, com os faróis a convidarem o crepúsculo, passa por mim, sentado, quase escondido, com os pés na relva húmida, numa varanda térrea a ler-me e ao meu lugar entre vinhas e a vida. Na carrinha, a adolescente de cabelo solto sentada entre cestos e baldes, as tesouras a cantarem em uníssono com os taipais metálicos e o olha, triste, invejando-me, de calções e férias onde não pertenço.
Torga, da capa, fitava compassiva e rudemente uma de suas histórias. A adolescente, de costas para a estrada, olhava-me diminuindo-se na paisagem e transformando-se em mais uma folha da maré ondulada de vides e cachos bolbosos que escorrem pelas encostas até ao Douro e eu, envergonhado, enterrei-me timidamente no livro e na terra, saboreando o silêncio a que fui votado.
![]()
Miguel Gomes nasceu no Porto em 1975, reside desde essa altura em Cête, freguesia do concelho de Paredes. Estudou engenharia informática e tem pautado a actividade profissional entre o ramo industrial da informática, gestão administrativa, ensino e formação. É co-autor do livro “Alma Tua” (2019, Guerra e Paz) subordinado ao Vale do Tua e da exposição de fotografia e poesia “Rota do Românico: Caminho de Encanto“, subordinada à Rota do Românico. Publicou crónicas na revista online “Bird Magazine” e, actualmente, no Correio do Porto e Canal N. Publica igualmente os seus textos no blogue “Serenismo”.






