A luz opaca e despreparada iluminava a sombra projectada pelo vulto sentado à mesa circular. A solidão teve sempre o condão de marcar presença junto de quem se despede, em vida, do que já partiu, mas ainda se senta, em espectro, velando o luto de si mesmo. A música repetitiva, cansativa, propositadamente hipnótica, guia os ávidos consumidores do desnecessário. Um dia que tudo falte, não sobrará nada para comprar e aí o que será do excesso? Estas questões não perturbam a sexagenária, sentada com a cabeça apoiada na mão, o cotovelo na mesa, um candeeiro de escuridão ilumina o horizonte estarrecido de uma existência que não se sabe finita e procura, nos outros, a continuidade de si mesma. Talvez pelo aproximar da idade, a morte vai rondando aqueles que em criança conheci sendo já velhos.

Quando dei por mim, o café já estava frio. Sorvi-o e guardei o pacote de açúcar que não gastei no bolso das calças. A senhora sorria, sozinha, na mesa circular, parecendo murmurar algo à sua invisível companhia, mas sou arrancado aos pensamentos por um telefonema, rápido, sucinto. Arrumo o melhor que possa as memórias do que presenciei e saio para a rua.

Volvidas poucas horas, o corpo que me veste tem dificuldades em reconhecer-se no reflexo do vidro negro da carrinha funerária. Vejo-me com a idade em que novo considerava outros velhos. Episódios fragmentados da memória visitam-me o sorriso e a candura das memórias dos que partem, felizmente, finalmente, para o caminho de regresso a Casa.

A vida não se resume ao peso de um caixão sobre os ombros. Mas vale-se no pedido sentido, entre um abraço e o sorriso por entre as lágrimas alheias que encontram caminho de um rosto ao outro, para que os acompanhe a carregar a urna.

O contraste entre a leveza que dá massa ao que temos e o nada que de facto somos e se une ao universo, obtém relevo. As graníticas paredes do Mosteiro adquirem uma porosidade luminosa por onde passam miríades de moléculas desconhecidas e que se alojam como pingos de chuva às auras pesadas de quem mirra na tristeza e sofrimento actual, enviadas por invisíveis, ternos e assertivos guardiões da vida, inclusive esta, que desconhecemos, voltada para uma procura incessante do que se carrega no interior. Suspiros mais profundos trazem dos recônditos dos sentimentos as mais vibrantes e luminosas recordações. Para já doem. Mas, volvidos uns dias, serão a janela aberta para a radiância dos dias que se caminham por cá na ausência, aos olhos, dos que voam por lá.

O calor da manhã de Verão satura de suor a terra que familiares e amigos depositam sobre a urna. Há tradições que não concordo, mas o respeito impele-me a marcar presença em amparo ou apenas para mostrar, no meu vulto que se espreguiça na terra, que há quem lá esteja, sempre, por eles. A meu lado, sem fazer qualquer sombra, sorri-me liberto das dores e do peso de uma vida por cá, sussurrando-me animado:

– Não te esqueças de dizer que os desenhos que os meninos fizeram, vistos daqui, têm muito mais cor!

E é assim, que o amor tem o condão de superar a dor.

Miguel Gomes nasceu no Porto em 1975, reside desde essa altura em Cête, freguesia do concelho de Paredes. Estudou engenharia informática e tem pautado a actividade profissional entre o ramo industrial da informática, gestão administrativa, ensino e formação. É co-autor do livro “Alma Tua” (2019, Guerra e Paz) subordinado ao Vale do Tua e da exposição de fotografia e poesia “Rota do Românico: Caminho de Encanto“, subordinada à Rota do Românico. Publicou crónicas na revista online “Bird Magazine” e, actualmente, no Correio do Porto e Canal N. Publica igualmente os seus textos no blogue “Serenismo”.

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