A vida corre com a força das correntes que esculpem as margens do rio Douro.
Erguemos muros de vaidade, vestimos os dias com os casacos luxuosos das distinções sociais e acumulamos títulos como quem junta pedras douradas na margem do rio.
Julgamo-nos eternos nas nossas vidas altas, mas o tempo, esse velho barqueiro silencioso, sabe bem que tudo pertence ao mesmo leito.
Quando a derradeira cheia vem, a morte, essa água mansa e inevitável que a todos alcança, não há barragem que resista, nem palácio de xisto que fique de pé.
Ela galga a terra, cobre os campos do lavrador e inunda os jardins do senhor abastado com a mesma indiferença.
Despidos de artifícios e despojados das roupas que os anos nos vestiram, ficamos nus diante do fim.
A terra molhada que acolhe o corpo cansado do mineiro tem o mesmo cheiro, a mesma humidade e a mesma escuridão daquela que cobre o homem mais poderoso do mundo.
No leito profundo da terra, as correntes acalmam. A lama e o ouro misturam-se no cascalho, e todas as diferenças criadas pelos homens revelam-se aquilo que sempre foram: marcas efémeras na areia, apagadas pela primeira cheia do inverno.
E no entanto há flores, molhos delas na última morada. É que afinal o que conta é a memória da vida, o tempo em que fomos todos diferentes uns dos outros, mas conscientes de que no fim, somos todos iguais, somos todos pó.
Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do Douro; Douro Inteiro; Douro Lindo; A Ninfa do Douro; Palavras – Conversas com um Rio; Fado Falado – Crónicas do Facebook; Amanhecer; Barcos de Papel; Casa de Bonecas e Crónicas de outro Mundo.






