Do Porto

A gaita do amolador

26 Maio 2017 Comentar

QUANDO, no espanto do dia, do alto dos telhados e das esquinas insondáveis da rua Miguel Bombarda, se ouvia o som da gaita do amolador a espalhar-se pelo ar, a embater no casario, a entrar pelas janelas, a meter-se pelas frinchas e pelas fechaduras comidas da ferrugem, a trepar pela pedra e o azulejo secular, a dona Celestina dizia logo,

“Olha. Amanhã vai chover”.

Era um som que se aproximava lento, que não se tinha a certeza de se ter ouvido logo ao início, como brisa leve que quase não provocasse aragem ao passar. Mas depois enchia a rua toda em tonalidades consecutivas, de grave a aguda, fu-do-re-mi-sol-do, fa-re-mi-sol-do-si-ii. E a dona Celestina, “Olha”. E corria pela casa, o soalho velho e gasto a ceder debaixo dos pés sapudos, a recolher as facas e as tesouras para levar ao amolador, a cadência a repetir-se naquele matiz quase impossível, fa-re-mi-sol-do-si-ii.

Alternado com a gaita, ouvia-se o pregão, “Afiam-se facas e tesouras”. Desde os treze anos que o Adosindo apregoava a amolação de materiais de corte e outros labores. Chegava na bicicleta a dar ao pedal, botava a gaita aos beiços e abria as goelas, “Afiam-se facas e tesouras”, até ficar rodeado de uma pequena multidão envergando gumes e fios metálicos apontados em todas as direcções.

O Adosindo também compunha as varetas partidas dos guarda-chuvas. Muitas vezes, quando se avizinhava o Outono por entre as folhagens trémulas das tílias, ou quando a chuva persistia, as encomendas eram tantas que o amolador chegava a juntar aos cinquenta guarda-chuvas para arranjar numa semana. Nessas alturas, as noites entravam pelas madrugadas. Na oficina, o amolador olhava a claridade da noite pelo postigo baço e parecia-lhe ver belas senhoras com as saias em balão a descer dos céus com guarda-chuvas abertos, perfeitos como novos. Eram os sonhos do amolador, que os tirava talvez do avançado da hora, numa invocação a dar sentido ao cheiro do metal limado e às mãos enegrecidas e ásperas do ofício.

Percorrendo a cidade às pedaladas, o Adosindo metia-se de rua em rua, em dias mais ou menos fixos, a amolar as arestas à vida. Os Invernos estragavam-lhe sobremaneira o negócio, que trazia as pessoas encolhidas da humidade e carrancudas, e não eram dias de dar uso à bicicleta – que a chuva e a ferrugem, é sabido, são amigas de longa data e inimigas do amolador. Assim, mal a cidade estabilizava da loucura quente e animada do Verão, as flores amarelas das tílias a soltarem-se, pesadas de pólenes, excesso de vida, mal o mês de Setembro piscava o olho ao calendário, já o Adosindo oleava os engenhos da bicicleta e deixava-a a brilhar como um brinco, para pedalar a cidade à cata de metais com que dar uso ao seu mister.

Depois, metia-se o interregno do Inverno e ninguém se lembrava do amolador. As tílias erguiam os braços aos céus, como numa oração, a pedir que o estado despido a que estavam devotadas não durasse o tempo de uma eternidade.

Assim que podia, o Adosindo teimava na Primavera, nos sons exaltados da gaita, fu-do-re-mi-sol-do, fa-re-mi-sol-do-si-ii. E mesmo com o tempo ainda fosco, mesmo com a Primavera a fazer cara de maus-modos, pedalava com convicção, a competir com o elétrico, o trolley e o autocarro de fole, em pedaladas incessantes, pelas largas avenidas, até se embrenhar nas ruas e ruelas, o som da gaita a espalhar-se e a embater em tudo, e a dona Celestina, lá no 484 da rua Miguel Bombarda, a correr pela casa, sobressaltada naquele espanto,

“Amanhã vai chover”.

As tílias exibiam folhas novas como brotos de simplicidade de um verde quase impossível, e o amolador, prenúncio de chuva, anunciação de Inverno – que logo lhe traziam os guarda-chuvas para consertar – sabia, no seu íntimo, que era o tempo, o momento de dar vida à bicicleta, como asas de pássaros ansiosos de viver na completude da sua existência. Era um objecto quase grotesco, engrenagem absurda, como passarola de chão saída de um encantamento. O amolador preparava os componentes da maravilha mecânica, para que nada falhasse nas horas de dar uso ao labor: uma espécie de mesa presa no guidão; rebolo e esmeril, duas pedras de ardosia; um torno; uma extremidade para fazer furos; uma caixa de ferramentas e um compartimento, como velha mala, para transportar os diversos objectos que havia de levar para consertar em casa. Material de grande porte ou que estivesse muito gasto ou rombudo era para levar para casa, junto com os guarda-chuvas. Por vezes, a mala era curta para tantos objectos e o amolador tinha de amarrar guarda-chuvas à bicicleta, com umas tiras castanhas, e lá ia no seu voo sem sair do chão, com umas pinças a apertar as calças para não engatarem nos pedais e nas correias.

Era sempre um ajuntamento em volta do amolador. Vinham logo as costureiras, com as tesouras de talhar, numa contrariedade temporal, com os olhos dilatados por detrás dos óculos nas pontas dos narizes, toupeirinhas apressadas, com encomendas para terminar; as donas de casa, com as facas da cozinha; as esteticistas com as lâminas da manicura; os barbeiros com as navalhas; os talhantes e os cozinheiros com os mais variadíssimos objectos de corte. Tesourões da poda, guilhotinas, facões, machados, material hospitalar e peças de coleccionador – aparecia de tudo ao amolador.

Na rua Miguel Bombarda, juntava-se por vezes um grupo singular – ou era a dona Celestina, que na sua auscultação silenciosa de fada do lar assim apreciava. O senhor Fernandes da mercearia trazia o disco da maquineta de cortar a mortadela em rodelas e o cabeleireiro, com o gesto efeminado, queria prioridades no tratamento das tesouras francesas, e dizia para o amolador, “Ai, senhorr Adosindo, cuide bem da minha tesoura, ai, que ela é sagrrada”. O senhor Fernandes da mercearia não olhava o cabeleireiro francês nos olhos e evitava a todo o custo qualquer proximidade com o dito, por isso afastava-se logo para trás preferindo, muito embora de mau grado, ficar para o fim. Prestes, vinha a Rosa, que empurrava todos com as ancas andrajosas. Metia-se por qualquer um dentro com os propósitos de ter pressa em servir a patroa, “Afie-me bem a faca, senhor Adosindo”, regateava em pronúncia aldeã, “Olhe que esta pequenina é que me dá jeito para degolar as galinhas. Olhe que a patroa mata-me, senhor Adosindo”, e a sua voz ia ficando mais grave, num sarrido, como num queixume, “É uma galinha por semana que aquela mulher come, aquela mulher mata-me em canseiras”. Com o medo à chuva, vinha gente e mais gente com os guarda-chuvas partidos, e enquanto pedalava, a bicicleta no descanso, o amolador, por instantes, com o rosto iluminado pelas faíscas, parecia-lhe ver as belas mulheres a cair dos céus com os guarda-chuvas abertos, e depois era uma espécie de pequena discussão, o amolador desenganava quem não tivesse bons guarda-chuvas, dizia, “Estes do chinês não vale a pena arranjar, só os bons. Estes, vem uma rabanada de vento, ficam desfeitos. Ainda na semana passada consertei dois muito bons, dos caros, ali para os lados da Boavista”.

Muitas vezes, os donos dos restaurantes ofereciam o almoço ao amolador, a troco das facas bem afiadas. Enquanto tomava o café, muitos andavam de volta da bicicleta a ver de que estranhas magias se faziam os engenhos. E o amolador contava histórias que vinha vivendo no passar dos anos. Afiançava que havia um homem de barbas e lenço vermelho atado à cabeça, espécie de ninja, que trazia espadas, sabres e catanas para afiar, “Aquilo fica o fio a reluzir, a tinir, como vós nunca vistes. Só nos filmes”. “E é fugir de um gume bem afiado”, garantia ele, enquanto montava a bicicleta e reiniciava a jornada.

E a vida, no passar dos anos, no rodar das estações, era como roda de bicicleta cheia de raios como um sol, a girar as andanças do amolador.

Certa vez, andavam as tílias derreadas, com os braços descaídos do peso do intenso calor da estação, lá vinha o amolador de gaita nos beiços, naquele prenúncio de quem traz o Inverno às costas, o mesmo aglomerado de gente empunhando gumes, parou a bicicleta no descanso, uma última tocadela própria do ritual de encerrar a gaitice, fa-re-mi-sol-do-si-ii, antes de iniciar o serviço. Ao tempo que rodou a cabeça, pareceu-lhe ver o homem ninja com uma catana às costas, no passeio do outro lado da rua. Terá sido uma visão talvez, na ilusão do calor, tinha a gaita ainda dependurada dos beiços e como fosse para falar, deixou-a cair. As mãos, muitas mãos, a tentarem segurá-la, até que se enfiou por um bueiro, imparável pelo esgoto, como se tivesse vida própria. “Lá foi a gaita”, a dona Celestina com as mãos à cabeça, “Lá foi a gaita”.

Há costumes que se extinguem na força dos tempos, e há outros que ninguém os arranca tão cedo às origens. Quando o calor aperta, os meninos da Ribeira dão saltos estrondosos da ponte D. Luís, mergulham como tordos afilados nas águas escuras do Douro. Certo dia, um desses meninos do rio emergiu das águas a soprar num estranho objecto. Ouviu-se, fu-do-re-mi. E o menino insistiu, fu-do, fu-do, o estranho instrumento carregado de verdete, rouco, a calar-se para sempre, fu. Fu.

As pessoas pararam, no espanto das coisas indizíveis e, por instantes, pareceu-lhes que vinha lá o amolador. Mas não. Perceberam que era apenas uma impressão no ar. O menino deu de ombros e largou a gaita sem valia, que voltou a afundar-se lentamente no rio.

Por Anabela Borges publicado originalmente in Lugares e Palavras do Porto, Lugar da Palavra Editora, 2014, página 20.

Nota: a autora utiliza a grafia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

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