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Rua da Estrada filosófica

Rua da Estrada filosófica

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VAI há muito tempo, o elo perdido entre a natureza e a cultura, o animal e o homem, etc., estava preenchido por uma categoria vazia pronta a ser ocupada pelo que desse jeito – o escravo, o bárbaro, o selvagem, o homem-macaco, ou a criança-lobo.

Da mesma forma, a zona cinzenta entre o natural e o sobrenatural ou o homem e os deuses ficaria em aberto para lá colocar um anjo, um vampiro ou um lobisomem. Se a fronteira fosse para separar a realidade e a fantasmagoria, podia ser uma sereia ou um centauro. Se, diferentemente ou além disso, a fronteira fosse entre o homem e a máquina, ou o humano e o técnico, na zona mista ficaria o ciborgue, a inteligência artificial do robô ou o mundo alucinado da internet dos objectos a dominar homens, casas, tamagoshis e macacos.

Cada uma destas coisas teria depois o seu “ambiente” – conjunto de condições que permitem a um organismo/coisa manter-se em virtude das suas capacidades e estratégias de sobrevivência -, e o seu “mundo”, ou seja, as infinitas modalidades de perceber e interpretar tudo o que a rodeia, seja numa perspectiva puramente utilitarista, seja nos confins da emoção, do sonho ou do delírio.

Para Giorgio Agamben, um filósofo autorizado nestas matérias, o animal estaria mais limitado e empobrecido porque preso ao seu mundo perceptivo e às possibilidades limitadas de interpretar e reagir face ao que lhe fosse acessível dessa forma – o instinto, segundo se pensa, uma espécie de grau zero da racionalidade e do pensamento simbólico, seja lá o que isso for.

Tudo isto pensam os humanos, claro. Nunca alguma cegonha quis ou soube debruçar-se sobre estas questões, nem nenhum humano conseguiu perguntar-lhe ou perceber o que borbulhava numa cabeça emplumada de instintos, pulsões e afectos. Aconteceu também que quando a cegonha começou a pensar, se lembrou de voar com os pensamentos e lá se foi outra vez a oportunidade. Esperamos um SMS.

O que é que tudo isso tem a ver com esta fotografia? Não se sabe. Aliás, nem sequer se consegue provar se a foto foi tirada por uma cegonha, por um humano, por uma daquelas couves em primeiro plano ou por um disparo programado de uma máquina com controlo remoto a partir de um lugar na internet. No mundo limitado e fechado de muitos humanos aquilo é só um pórtico metálico sobre uma estrada onde as cegonhas fizeram ninho. Pobres instintos.

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada.

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