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Rua da Estrada do Órgão de Tubos

Rua da Estrada do Órgão de Tubos

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FOLEIRO era o homem que accionava os foles para que o ar soasse nos tubos do órgão. Trabalho pesado e pouco estimado para a maioria daqueles que apenas se deleitavam com as revoadas sonoras da música nas igrejas, cardumes de anjos pelas paredes acima a ressoar no ventre pétreo das abóbadas. Assim também me parecera nesta molhada de encanação exorbitante, qual magote gigantesco de tubos de betão amarrados por uma faixa azul e branca da cor do céu, oitenta metros ao alto para guardar milho, trigo, girassol e outras granulosidades cerealíferas junto à Rua da Estrada da Trafaria.

Se aquela casa azul em tonalidade assimétrica e variada fenestração tivera arcaboiço para lá instalar uns teclados para mãos, pedaleiras e registos, e depois se ligasse toda a pneumática das sonoridades à magnífica molhada tubular que lhe assentou nas traseiras, quão grandiosas sonoridades se soltariam para o Mar da Palha e depois até Belém e a torre se rachariam na trovoada dos decibéis.

A música, escrevia Ludwig Feuerbach, é um monólogo do sentimento. Mas o próprio diálogo da filosofia é, na verdade, apenas um monólogo da razão: o pensamento só fala para o pensamento. 0 brilho das cores dos cristais arrebata os sentidos; mas à razão só interessam as leis da cristalografia. E quero eu lá saber; há que tempos que a razão perdeu juízo. Pitágoras ou Lao-Tsé, cada um de seu canto do mundo na mesma curva do tempo, associaram a música à harmonia do universo por todos os sentimentos e razões e os teólogos procuram aí a essência do inefável porque até aquele que bem sabeis mandou escrever que por castigos e embirrações suas, Babilónia ficaria destruída e sem a melodia das flautas e das trombetas, suprema criação do espírito e acelerador das partículas hormonais.

Deveras vos digo que quando vos ocorrer que já nada mais achareis de novo na Rua da Estrada, pode ser que vos apareça o que não estava no motor de busca.

Porém, aqui chegado, ainda não percebi o que me conduziu – talvez aquele grafito de fios no canto superior esquerdo me parecesse uma Clave de Sol a insinuar-se na pauta incompleta dos fios eléctricos, ou a impressão da buzina desmedida de um camião TIR que estacou atrás de mim quando me fiz outra vez com o automóvel à estrada a passo de lesma sem conseguir deslargar da massa acústica que resfolgava daquela aparição. Quem sabe…

Queria, sem mais, deixar apenas uma nota final: Sol maior (antes que a névoa fina o tape por ter engrossado).

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada

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