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Rua da Estrada do jardim do cipreste

Rua da Estrada do jardim do cipreste

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PARA exorcizar os dogmas do pensamento religioso, do milagre e da crença, a ciência moderna operou a divisão entre o natural e o cultural e tudo passou a ser sua (científica) criação. Nunca mais regressaremos ao Éden. Um cipreste é um assunto natural e um poste de iluminação pública é um assunto cultural. Deixou de haver mistérios e encantamentos.

No entanto, um ilustríssimo antropólogo de seu nome Philippe Descola[1] leva já algum tempo a explicar que esta visão ocidental ilustrada é incapaz de captar muitas das ideias, das relações, ou do imaginário entre o humano e o não humano; por outras palavras, é inapropriada para equacionar os problemas resultantes da habitual distinção/oposição entre cultura e natureza.

Por isso, vai sendo cada vez mais difícil manter esta dualidade para além de conversas pouco mais que delgadas e distraídas. A natureza sobrenatural do Jardim do Paraíso é um artifício moral; uma loja de produtos naturais é comércio global; um buraco negro é um enigma; o dióxido de carbono é diabólico e assim por diante. Um daqueles desgraçados frangos já esgalhado ao meio em cima da grelha, é um animal biotecnologicamente produzido que se transformou numa mercadoria assada com ou sem picante e dose de batata frita. A natureza do frango – Gallus gallus domesticus – passou, assim, a ficar cada vez mais problemática por se ter ensarilhado em, pelo menos, três contorcionismos que lhe misturaram completamente as partes culturais da sua natureza e as partes naturais da cultura que o produziu: natureza domesticada, tecnologicamente assistida e mercantilizada em forma de refeição rápida. Restam tripas, peles, ossos e penas. Moelas e fígados são miudezas. Que dizer do cyborg se já é tão difícil nutrir esta conversa apenas com churrasco?

Passando agora do mundo animal para o vegetal. Um cipreste – Cupressus sempervirens -, símbolo de longevidade, mas também da morte e da ressurreição, união entre o inframundo e os céus, coisa fálica para muitas mentes que assim veem tudo que empina, é uma natureza domesticada com presença abundante nos jardins que, como o paraíso, deveriam ser lugares maravilhosos de atmosfera doce e amena, criaturas inocentes e mananciais abundantes de águas, rios, lagos e quem sabe, piscinas.

Por vezes, a Rua da Estrada junta coisas admiráveis e de profundo sentido místico – é da sua cultural natureza de asfalto enriquecido.

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada.

[1] Descola, P. (1992), “Societies of Nature and the Nature of Society”, in Kuper. A. (org): Conceptualizing Society, pp. 107-126. London- New York: Routledge.

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