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Rua da Estrada do Futebol

Rua da Estrada do Futebol

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NO Teatro do Campo Alegre por ocasião de umas “Quintas de Leitura”, o rapper Chullage desfiava mitologias da portugalidade num caudal quase hipnótico de palavras ritmadas. Em determinada altura, a triologia salazarenta do Fado, Fátima e Futebol ganhava um quarto f – Facebook. Estava assim revista e aumentada a lista das coisas que nos entretêm e que por nelas pensarmos em demasia, se nos escapam outras.

Baseada em Marcel Mauss, a investigação sociológica chama ao futebol um “fenómeno social total” que é assim porque mobiliza a sociedade e todas as suas instituições, sendo capaz de cavalgar todas as fronteiras de gosto, classe, matriz cultural, etc., e voar do desgraçado ao diplomado, do ladrão ao patrão ou do sem-nada à elite, adaptando-se às mais variadas visões do mundo e palavras para as exprimir. Da televisão às redes sociais, do jargão da política, da guerra, das tribos, do jogo das identidades e pertenças a lugares, tudo o futebol pode inseminar com o seu léxico: o golo, o adversário, a táctica, a finta, o contra-ataque, a chicotada psicológica, o que for. A cultura sofisticada fará complexas análises dos conceitos, teorias e práticas da problemática do xuto na bola, do jogador virtuoso ou do carisma do treinador, e o registo em modo de cultura leve e gaseificada produzirá verdades definitivas sobre quem é melhor que quem e agitará bandeiras, emblemas, pinturas de guerra e muito português vernáculo de fazer corar um muro caiado de fresco. As animosidades futebolísticas ritualizam e anulam outras violências públicas e privadas – vingamo-nos no fim-de-semana do futebol para aliviar a pressão na marmita que se encheu toda a semana com a indiferença dos outros, o trabalho mal pago, os banqueiros que não vão presos ou o capitalismo que se desvaneceu em milhões de zeros de coisas invisíveis de que fazemos parte[1].

No meio dessa efervescência, este afloramento minimal parece demasiado modesto – tapete verde sobre metal polido, sem palavras ou outro recurso semiótico. No entanto tudo em volta está perturbado – a casa do outro lado vai-se afundando lentamente e estes ferros laterais estão ali porque haverá ameaças de qualquer coisa saltar do asfalto ou saltar asfalto de qualquer coisa. Nunca fiando – um dia aqueles eucaliptos também explodirão em chamas e a dissipação da violência contida será mais feroz que este pau em primeiro plano a acertar nas cabeças dos árbitros que favoreceram o adversário.

Que fartos que estamos, eu e eu e uns aqui, de tanto assunto futebolística na rádio e na TV. Tanto ópio para o povo e tanto excesso de toxicodependência, o pré-jogo, o jogo, o pós-jogo, os milhões, as compras, as vendas, os clubes, a FIFA, os estádios, o balneário, os hinos, os treinadores, o golo, as claques, o apito, o relato, a mística, os treinos, os comentaristas, a bola, o poste, a equipa técnica, as ligas, a super-liga, as meias, a meia-final…, a rede da baliza em ponto de cruz, a sociedade em rede, a bainha aberta, o nó cego, as lesões e as fracturas demasiado expostas. Alguém que diga aos adeptos fervorosos do desporto-rei que se implementou a república em 1910. Apre!

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada.

[1] Ver em Albertino GONÇALVES (2009) Vertigens – para uma sociologia da perversidade, Grácio Editor, Coimbra.

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