NO jargão urbanístico anglo-saxónico, o CBD, Central Business District, designa o centro de negócios onde se aglomeram empresas e organizações arrumadas em torres esguias com vidros espelhados e logótipos à vista. Aí se localiza o caroço do sector financeiro, as sedes dos grandes grupos económicos, as instituições de maior visibilidade e importância social…, concentrando o emprego qualificado e o poder por metros quadrados de escritórios a preços galopantes. Com tal artilharia, o CBD seria o ponto de máxima centralidade de qualquer aglomerado urbano, constituindo um lugar de elevada importância e capacidade de polarização…, até que lhe desse um ataque de congestão, disfuncionalidade e febre de rendas impossíveis.

Na velha Europa, essa nova geografia da centralidade pode não coincidir com o centro antigo que, à parte da sua monumentalidade, visibilidade e valor simbólico, foi perdendo muita da tradicional capacidade de atrair funções direccionais, prestando-se agora mais para relíquia patrimonial e azáfama turística.

Agora a coisa está mais radical ainda. Afinal as sedes dos grupos económicos também podem escolher a Rua da Estrada sem que isso lhes perturbe os negócios aqui e em todos os continentes.

No fundo do cenário, antes da igreja, há uma auto-estrada que cruza a Rua da Estrada que liga a um aeroporto, a um porto, ao mundo; no azul do céu passam cabos de energia de alta tensão com bolas vermelhas e brancas, aviões, pássaros e ondas electromagnéticas presas por redes sem fios. Que mais será preciso?

A memória do centro já só aparece em forma de rodela (é obrigatório contornar).

SOBRE O AUTOR: Álvaro Domingues (Melgaço, 1959) é geógrafo e professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, onde também é investigador no CEAU-Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo. É autor de A Rua da EstradaVida no Campo e Volta a Portugal. Colabora com o Correio do Porto desde janeiro de 2015.

Publicado originalmente em 19 de Junho de 2015

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