DEPOIS de dizer coisas ameaçadoras por causa da retoma, do crescimento económico e do emprego (qual retoma, qual crescimento e qual emprego?), o presidente de todos os portugueses do PSD e das instituições financeiras, mercados e investidores, fez a figura que sempre fez sem aquecer nem arrefecer.

Muito oxigenado mais que o costume, com a voz segura e a habitual ausência de alguns rrr, o Presidente ralhou com os partidos políticos que não se aliaram como ele queria e para dizer que quem ganha as eleições é que é convidado para primeiro-ministro e coiso. Depois chutou para a Assembleia da República e para os deputados e que agora era com eles e que tivessem juízo e disse boa noite e lá foi para trás dos cortinados muito esquinudo e nem a bandeira estremeceu nem se tocou o hino.

Ficamos outra vez na mesma com os barracos arruinados, sem telhas, a meter água e mulheres indecorosas a virar-nos as costas e a mostrar as partes vergonhosas de trás, tudo a desfazer-se e ervas daninhas a crescer por toda a parte. Vêm aí os comunistas e vão destruir os templos e comer as criancinhas. Se comessem carnes mais rijas ainda podiam tentar a Merkel mas ela foge. Criancinhas há poucas e com a natalidade tão baixa nem pensar em come-las. Que desgraça! Que fizemos para merecer isto, oh céus, oh abismos!

Álvaro Domingues (Melgaço, 1959) é geógrafo e professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, onde também é investigador no CEAU-Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo. É autor de A Rua da EstradaVida no Campo e Volta a Portugal. Colabora com o Correio do Porto desde janeiro de 2015.

Publicado originalmente em 22 de outubro de 2015

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