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Rua da Estrada da lavoura na rotunda

Rua da Estrada da lavoura na rotunda

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DO ROMANTISMO e da cultura cultivada, vem uma visão do camponês oscilando entre duas representações opostas – uma é preenchida por um imaginário metafísico algures entre o natural e o sobrenatural acerca de quem conhece os segredos da terra, o vocabulário dos pássaros e todas as criaturas através das quais os deuses revelam a sua bondade ou a ira destruidora das trovoadas e das tempestades; a outra é uma versão mais bruta que se traduz na visão do labrego andrajoso que cheira a vinho e bate na mulher e nos filhos. Assim é o mundo que nestas e noutras coisas, pelo sim, pelo não, reserva várias versões do mesmo facto para acomodar a crença daqueles que dizem que nada existe a não ser pela forma como é pensado, entendido e decifrado. Tem lógica.

Nesta rotunda do hiper-espaço que se desdobra em múltiplas dimensões e relações locais e globais, por estrada ou auto-estrada segundo sentidos obrigatórios ou proibidos, vai uma lavoura arcaica. Ao contrário do romance homónimo de Raduan Nassar (1975), não se vislumbra aqui nada de trágico, complexo e subversivo em torno da versão bíblica do filho pródigo que volta para reivindicar e perverter a ordem da casa e do mundo. São apenas bonecos tristes demasiado petrificados pela dureza deste solo pouco arável.

Habitualmente, quando as coisas vêm para a placa central das rotundas é porque estão em fase de desaparecimento, mitificação ou ambas. Esse estado delicado permite todas as fantasias – aliás, não só permite como vive delas e as alimenta. No entanto, porque existem sempre muitíssimas coisas em desaparecimento ou dissipação, faz sentido questionar porquê que umas ficam e outras não.

Apetecia-me pensar que de tanta pregação sobre a edificação em solo agrícola, este fosse um manifesto defendendo a agricultura nas rotundas, tantas que elas são e bem adaptadas aos sistemas de rega que descrevem círculos enquanto espalham as águas em borrifos… ou talvez não. Talvez seja uma subversão da estatuária equestre que põe uns senhoritos no meio das praças em toneladas de bronze, montados em cavalos por sobre grossas peanhas de mármore cheias de escritos e alegorias aos seus feitos valerosos. Dessa majestática iconografia do poder, esta é todo o contrário: o cavalo perdeu a sela, o cavaleiro e a pose e olha submisso para o chão na sua condição de animal de trabalho; a mulher, de xaile, lenço e avental pretos e pés descalços deverá segurar a cavalgadura por uma corda, mas entretanto está um tanto alheada; o homem, segurando na rabiça do arado, parece tão cravado ao chão como o próprio arado. Senhores, cavaleiros e déspotas, não há. Como cena campestre falta-lhe a desenvoltura do semeador de Van Gohg ou a mística do Angelus de Millet; são apenas figuras agigantadas para distrair automobilistas do Porto para o Montijo, Vila Franca, Lisboa, Coimbra, Aldi ou Pingo Doce.

Não se me ocorre mais nada. Deve-se reparar sempre em tudo o que está nas rotundas. Para uma sociedade de fluídos e de movimentos, a rotunda é a metáfora da organização da deriva e do labirinto; o lugar onde se sinaliza uma ocorrência, onde se indicam sentidos e nomes de coisas e lugares reais e imaginários. É preciso controlar, rodear cuidadosamente, estar atento e seguir.

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada.

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