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Rua da Estrada da Balaustrada

Rua da Estrada da Balaustrada

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“(…) CADA casa repete servilmente a outra casa; todas as faces reproduzem a mesma indiferença ou a mesma inquietação, as ideias têm todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma forma, como as libras; e até o que há mais pessoal e íntimo, a Ilusão, é em todos idêntica, e todos a respiram, e todos se perdem nela como no mesmo nevoeiro… A mesmice — eis o horror das Cidades!”

Esta mesmice parisiense da dobra do século de que fala Eça para contrastar a cidade com as supostas delícias campestres da serra, é uma face desencantada mais ou menos equivalente à igualdade prometida pela racionalidade modernista que, pela voz das suas mentes mais arrelampadas, pregava que assim se chegava à pureza, à inteligência, à economia, à exactidão…, ao “espírito novo”. Como se a sociedade ou a política fossem geometria descritiva, também a massificação, os volumes brancos, o ângulo recto e o betão aparente, entre outras fétiches, seriam democráticos e o ornamento, uma selvajaria burguesa de mau gosto ou uma inocência cretina do povo.

Valha-nos o santíssimo e que nos livre de estetas moralistas e ditadores com excesso de ego. Se lhes doer muito a cabeça de olharem para o pandemónio do mundo, que venham para aqui dar com a testa na balaustrada ou na seta vermelha da coluna branca e depois, ao fundo, no esteio de granito…, para depois descansarem encolhidos na casinha da rocha a ver passar carros e que o candeeiro os alumie de noite.

Vai uma crise que nem vos digo…, isso é que é.

SOBRE O AUTOR: Álvaro Domingues (Melgaço, 1959) é geógrafo e professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, onde também é investigador no CEAU-Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo. É autor de A Rua da EstradaVida no Campo e Volta a Portugal.

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