Há um Douro que não está nos mapas, nem nas garrafas de vinho fino. Está nas mãos das mulheres que lavaram a roupa nas pedras lisas da margem, cantarolando baixo para os filhos pequenos que brincam com seixos redondos.
Está no barco que não leva pipas, mas merendas, pão escuro, azeitonas, cebola doce rachada em quatro, espargida com sal grosso, regada com vinho tinto, e rema devagar até à enseada onde as amendoeiras floridas chovem pétalas brancas sobre a água.
Este Douro não se escreve com palavras, escreve-se com gestos:
– Com as mãos que remam, nunca contra a corrente, mas com ela, deixando que o rio as guie, como um pai que ensina o filho a andar, segurando sem apertar.
– Com os braços que carregam os cestos das uvas, jamais como fardo, mas como uma oferenda, cada cacho pesado de sol, cada bago um rubi suado que será depois luz a cintilar nos copos.
– Com os joelhos que se dobram na horta à beira-rio, onde a terra, regada pela cheia branda, dá abóboras douradas, tomates que sabem a infância, manjericão que perfuma a tarde.
– E também com os olhos que vigiam as crianças sem ser por medo de afogamento, mas pela certeza de que o rio as acolhe, que a água aqui é fria, mas familiar, uma extensão do quintal, um avô líquido que as embala.
Neste Douro, os barcos não são de carga, são de passagem suave.
São as barcaças do pão e do leite que ligam uma margem à outra, trazendo notícias, cumprimentos, um queijo fresco ainda quente da forma.
O barqueiro do Douro conhece cada criança pelo nome, e atira-lhes maçãs vermelhas ao passar.
Aqui, o rio é espelho do céu e da vida que ele sustenta. Reflete os cestos de roupa estendida nos campos íngremes, bandeiras coloridas do quotidiano. Reflete os beijos dados à porta das casas de xisto, ao amanhecer, antes dos homens partirem para a vinha. Reflete a dança lenta dos idosos no adro da capela, ao som do acordeão, enquanto o sol se põe atrás das amendoeiras.
E à noite, quando as estrelas se acendem e a lua pinta um caminho prateado sobre as águas, este Douro de que vos falo, canta.
Não propriamente com voz humana, mas com o coro das rãs, com o arrastar suave dos salgueiros, com o bater ritmado de um remo solitário que leva um namorado à casa da amada, que fica do outro lado.
Este é o Douro que amamenta.
Que não toma, que dá. Que não afoga, que abraça.
Que não exige, que agradece.
E se alguma vez precisares de o encontrar, não procures nas palavras.
Fecha os olhos. Sente o cheiro a alfavaca que é manjericão e a rio ao entardecer.
Ouve o riso de uma criança a chapinhar numa poça da margem. Toca no xisto aquecido pelo sol, onde uma lagartixa dormita.
Ele está aí. Sempre esteve.
O Douro luminoso. O rio que é casa.
Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do Douro; Douro Inteiro; Douro Lindo; A Ninfa do Douro; Palavras – Conversas com um Rio; Fado Falado – Crónicas do Facebook; Amanhecer; Barcos de Papel; Casa de Bonecas e Crónicas de outro Mundo.






