Com o amanhecer de Domingo, o Maio anuncia-se nos meus joelhos doridos da neblina. O Café vai tendo as mesmas caras conhecidas, o balcão aquece-se nos braços de fora das mangas curtas. A máquina do tabaco informa o preço do vício a quem conta os trocos para saciar os que fumam por eles, a cada um seu mal, mais uns passos arrastados na lama do umbral.

“Era uma cerveja com favaios”, o tom forte e arrastado de uma voz endurecida ao Sol, na vida, “Se faz favor”, na educação que ainda se cultiva em terras rurais.

A face conhecida coloca-se à frente do nome e, por não me lembrar dele, não o saúdo como queria. Sou mais velho em grãos de terra sob os pés, mas parece ultrapassar-me na tez negra, queimada, de quem constrói para que outros usufruam. Muitas das vezes, a custo de uma subvalorização a que se acostumam, na maioria, os que se julgam superiores aos outros. Encosto-me às letras do jornal, leio as notícias de há um mês, percorro com o olhar as falas que ouço, como se se escrevessem em tempo real as diversas maleitas que acometem vidas cansadas. Quanto tempo mais vivendo realidades passadas?

Sem que as duas televisões me saciem a curiosidade que não encontro mediatizada, venho para a porta do Café, desço o degrau para a rua. Sem saída. Vazia. Nua. O comboio surge num borrão amarelado, parando, silvando, enquanto um ou outro passageiro se esforça por galgar os metros que o separam do destino transportado. É Domingo e, no entanto, nem o jugo de muitos parece ter abrandado.

Há um obituário que me empresta a memória de quem desta vida se liberta, para habitar onde a visão não acoberta. Um aperto de mão, uma palmada nas costas. Por baixo dos óculos sorriem-me e agradecem, reconhecendo já ter lido o meu comentário de pêsames na rede social. Até por aqui se espalha o bem, ainda que construído pelo mal. Faço um esforço para recordar o nome do rapaz. Homem, mas nada. Habituado a vê-lo mais pequeno, surpreendo-me pelo volume conquistado à idade, voz grossa, olhar longínquo, a espuma da cerveja escurecida pelo favaios a escorrer lentamente, como o dia, sem promessa de vir quente.

Depois do toque anunciador da partida do comboio, escuto a história, a mesma de todos e todas, as conquistas e perdas de quem nunca foi ensinado que só se ganha o que não se quer perder e que para tal, basta nada possuir, para tudo ter. Existe sempre quem não compreenda, escolhas e desenlaces, ou a preocupação com os pais, ambos a contas com processos oncológicos. Lamenta-se da actual fragilidade da mãe. “aquilo que lhe metem nos braços”, após duas sessões de quimioterapia. E do tumor encontrado no pai. “Estou em casa deles, a ajudar no que posso”. Olhou para o copo, que lhe devolveu o mesmo olhar, vazio, empurrando-o para o caminho de regresso a casa “Sou filho, era o que tinha a fazer, estou lá a viver com eles.” Deram-lhe uma palmada nas costas, o gesto calado de confortar um homem que poderia ser seu filho, “Vai lá”. Silêncio. “Força”. O “obrigado” saiu embargado e já com os pés a caminho.

Vimo-lo descer as escadas e desaparecer para o túnel do comboio, enquanto eu ensaiava as palavras que poderia dar em forma de abraço silenciado e foi aí, por entre a tristeza, que me surgiu, à distância, o nome.

Miguel Gomes nasceu no Porto em 1975, reside desde essa altura em Cête, freguesia do concelho de Paredes. Estudou engenharia informática e tem pautado a actividade profissional entre o ramo industrial da informática, gestão administrativa, ensino e formação. É co-autor do livro “Alma Tua” (2019, Guerra e Paz) subordinado ao Vale do Tua e da exposição de fotografia e poesia “Rota do Românico: Caminho de Encanto“, subordinada à Rota do Românico. Publicou crónicas na revista online “Bird Magazine” e, actualmente, no Correio do Porto e Canal N. Publica igualmente os seus textos no blogue “Serenismo”.

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