1915
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Rodrigo Solano (1879-1910)

Rodrigo Solano (1879-1910)

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1915

6.
Num ai de luz profundo e soluçante,
Resvala ao mar o sol, como um guerreiro
Que, ferido d’um gladio traiçoeiro,
Na arena cae, vencido, agonisante.

Ó coração ferido e palpitante!
Sol! meu irmão na dor, meu companheiro!
Fez-nos irmãos o ideal, um altaneiro
Orgulho e uma amargura semelhante.

Mas ai! eu morro, solitariamente,
Sem que por mim chore a das tranças bellas,
E, ó Sol! na tua hora derradeira,

O mar soluça inconsolavelmente,
A noite verte o pranto das estrellas
E veste luto a natureza inteira.”

in Fumo, pref. João Grave, Porto: Edição da Renascença Portuguesa, 1915, pág. 41.

5.
É tão franzina, tão leve,
Que a gente, vendo-a passar,
Fica-se pasmada a olhar
Com medo que o vento a leve.

Mas, vendo a flor por quem peno,
Ninguém, ninguém imagina
Que o seu sorrir tem veneno,
Que o seu olhar assassina.

Porém nada há de mais belo
Que essa mulher que me atrista.
Suprema glória a do artista
Que a tivesse por modelo!

Vá na rua, entre na sala,
Vendo-a indolente e sem pose,
Ergue a voz a Apoteose
Por toda a parte a saudá-la,

Desde a alemã, flor gelada,
Até à ardente sultana,
Da moderna sevilhana
Às deusas da antiga Helada.

Qual que em graça a sobreleve
E mais belezas encarne?
Diluí rosas em neve,
Ter-lhe-eis o misto da carne.

Delgada, esbelta e altaneira,
Tem a elegância dos mastros
Basta e preta a cabeleira
É-lhe uma noite sem astros.

Seu braço jáspeo e venusto,
Quando ela me acinge ao seio,
Enrosca-se no meu busto
Tal como a vide no esteio.

Vendo-a passar tentadora,
Mais atraente que o mal,
Eu julgo-a a Eva d’ outrora
E creio Adão meu rival.

É bela, sim, mas traidora!
Dum nervosismo de gata,
A cada beijo devora,
A cada carícia mata.

Porém que morte tão bela
A nos seus lábios bebida!
Quero bebê-la, bebê-la…
É morte que dá mais vida.”

“Ela” [1900], poema não incluído em Fumo (1915 [2010]) 

4.
Morrer! Volver ao Nada! Oh! quimera ilusória!
Nada se extingue totalmente. Sob a lousa,
Ainda resta do que foste alguma cousa.
Extingue-se somente a forma transitória.

A matéria, essa não. Decomposta, fundida
Na retorta da cova, em seiva, pó disperso,
De novo há de girar nas veias do Universo,
Retomando outra forma, outro ser, outra vida.

E em vão, em vão a própria forma se evapora.
Sempre do morto amado a imagem ressuscita
E, no doce pungir da saudade infinita,
Dentro da nossa alma eternamente mora.”

in Fumo, ed. at., Penafiel: Câmara Municipal de Penafiel, 2010, p. 78 

3.
Cai a luz do luar da casa dela em torno,
Cai a luz do luar como um véu d’escumilha. 

2.
Todos d’Amor se queixam! Desgraçada
Criatura a que nele confiar. 

1.
Sente-se a gente bem quando alguém chora.
Ouvindo soluçar a dor alheia,
A dor que as nossas almas alanceia
Dá-nos tréguas, apaga-se, minora.

Por isso eu vou às vezes pensativo
Escutar esses lúgubres lamentos
Que, inconsolável, bárbaro cativo,
O mar rouqueja esguedelhado aos ventos.

E o choro largo, lento e lamentoso
Dos meus desejos desgrenhados, loucos,
Vai-se calando, adormecendo aos poucos,
Ao soluçar do eterno desditoso.

Sim! a minh’ alma cala-se e adormece
Olhando as vagas – corações a arfar –
– Não que me punja, não que me atravesse
O peito a dor intérmina do mar;

Mas porque, quando a Dor nos cinge ao colo,
Por um egoísmo lúgubre, altaneiro,
Sentimos sempre um íntimo consolo
Em acharmos na Dor um companheiro.

Ora uma vez que a Mágoa me açoutava
Como o vento do norte os arvoredos,
– Morria o sol, a escuridão tombava –
Fui-me assentar na crista dos rochedos.

O mar rugia indómito e selvagem
E o meu olhar errava distraído
Por sobre aquele espelho indefinido
Em que a minh’ alma via a sua imagem.

E perguntei ao mar em cujo fundo
Se arrasam e se geram continentes,
Onde há riquezas de assombrar o mundo,
Porque chorava, rei dos Descontentes.

– «O que desejas mais? O que te faz
Andar chorando?» – E o mar em voz convulsa:
-«É que há em mim um coração que pulsa
E nada o coração nos satisfaz.» –

in Fumo, ed. act., Penafiel: Câmara Municipal de Penafiel, 2010, pp. 70-71.

Rodrigo Solano Ferreira da Silva (Penafiel 27-03-1879 e Porto 21-07-1910). Desde cedo viu o seu talento poético reconhecido entre os cenáculos literários que frequentou em Viana do Castelo, onde foi professor do Liceu durante breve período, e sobretudo no Porto, onde exerceu a atividade de jornalista em vários periódicos. Os seus poemas e traduções encontravam-se dispersos no momento da sua morte. Em 1915, a Renascença Portuguesa reuniu-os no volume Fumo com prefácio de João Grave, sendo este volume reeditado em 2010 pela Câmara Municipal de Penafiel. Essa reedição incluiu ainda outros textos da sua autoria, entretanto recuperados. Jaz atualmente no Cemitério da Lapa, na cidade do Porto, no jazigo de Freitas Fortuna, o mesmo que Camilo Castelo Branco escolheu para sua sepultura. A sua poesia revela o compromisso entre um rigoroso aprumo formal e um lirismo subjetivo que colhe nas mais influentes experiências estéticas oitocentistas muitos dos seus temas e imagens. Por Francisco Saraiva Fino

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1 COMENTÁRIO

  1. Merci de tout cœur à tous ceux qui œuvre à la mémoire de mon arrière-grand-père Rodrigo Solano. J’ai eu la chance de connaitre son fils Agosthino, mon Grand-père, décédé en 1980 à 76 ans. Malheureusement il ne nous a jamais donné de détail sur ses parents. Je découvre petit à petit l’histoire de mes ancêtres au travers de vos écritures.
    Toute ma reconnaissance et en particulier à Mr Fransisco Saraiva Fino. Cordialement Jean-Paul Cabanne

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