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Miguel d’Ors

Miguel d’Ors

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NÚMEROS GRANDES

Oh belas lançadoras nórdicas do martelo
– um metro e oitenta e quatro e noventa e seis quilos -,
com esses intrincados apelidos viquingues
e essas tranças albinas presas com lacinhos
cor de rosa que trazem um toque feminino
à vossa imensidade, na qual adivinho
um coração de menina, inocente e sensível,
empapado pelo romantismo mais doce.

Oh vénus XL, com que deleite vejo
como o martelo voa, acompanhado pelo vosso grito
de mulheres guerreiras de um velho tempo mítico;
e com que graça enorme vos retirais do círculo
de volta ao sorriso e ao sentimentalismo.

Que feliz há-de ser aquele a quem o destino
atribuiu a sorte de ser o vosso marido,
que prazer lhe dará, nos silêncios íntimos,
ser abraçado por esses braços, rendidos
à ternura, e (tenho a certeza de que agora
algum ou alguma imbecil me acusará de machismo)
ver noventa e seis quilos de mulher submetidos
à secreta força do amor.

Invejo-o a ele
tanto como a vós, valquírias, vos admiro.
É a vossa formosa imagem o motivo principal
pelo qual, de quatro em quatro anos, fervoroso, sigo
todas as transmissões dos jogos olímpicos.

                                                                                                              24-X-2020

in Viaje de invierno; Renacimiento, Sevilha, 2021, pp. 27-28, tradução de Luís Filipe Parrado

1.

ATRAVÉS DA GRADE

Mal tinha começado, no topo desta folha,
a escrevinhar uns versos quando passa
– com um enorme feixe de milho à cabeça
e estrume nos tamancos – Argimira.
Cheia de pressa, diz, voltando-se um momento
como uma cariátide campestre,
vai dar a mama ao quarto dos seus filhos
e logo descerá até à estrada
a botija vazia – o seu marido
trabalha toda a tarde nas gasosas -,
e a ver se lhe dá tempo de juntar-se
ainda à Novena. E, tão feliz,
sorri numa pergunta olhando os meus papéis:
“E tu, o que é que estás aí a rabiscar?”.

Tradução Luís Pedroso

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