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José Manuel Teixeira da Silva (1959)

José Manuel Teixeira da Silva (1959)

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8.
CAPELA DOS OSSOS EM LAGOS

É um anexo da morada branca
para lá da sucessão das naves
Em rigor, errámos apenas de transparência
em transparência, até às cúpulas quebradas de cristal
Há mudanças de horários, atrasos nos semáforos
uma ou outra metáfora
ondulações, voos espaçados
Recomeçaram obras de conservação ou de restauro
e assim se adiam as visitas
O estilo é gracioso, com ossinhos delicados
simetrias que o acaso desenhou
para quase nada
e só o pensamento agora edificou
Pendem as maçãs de ouro, no fundo do jardim
como se fossem já maduras

Ampliações e reconstruções
os nomes que imitam, como sempre, a natureza
estragos causados por um terramoto antigo
a imagem de uma santa dando à costa num caixão
e que alguém vai recolher, após naufrágio

Lento, o labor do sal e da luz nessa capela 

7.
JOÃO CABRAL NO CONSULADO DO PORTO

Há-de haver um poema sobre desatenções
e diversas faltas de amor, mas acreditem
sou alheio a esse facto
À falta de outra palavra
direi que nem sequer estou triste
porque apenas vejo o que vejo

Ergue-se, é certo, uma muralha e o nevoeiro
coroando as torres de imaginação
e poderia ao menos registar a poeira ferrujenta
e endurecida, súbitos vapores do lirismo

Desta vez de nada tomei posse
estão impecáveis os cadernos, as réguas
e os carimbos, cuido só das cortinas, dedicada
cegueira à luz que se perde no granito

Em pura verdade, volto o olhar
às extensões da Andaluzia, assaltam-me
recados urgentes do Recife, e nem esqueço
a minha ausência, dia após dia
a iluminar uma casa do Rio de Janeiro
Tudo expliquei com o justo exemplo
da faca, dispenso os dois gumes
as armas brancas em demasia

Quase nunca abro a porta que fizeram
os artesãos desta cidade, muito agradeço
tão boa madeira, deixa-me à distância de
soluços, catarros, gritaria solta do lugar

quando, de hora a hora, ofereço
o que tenho de melhor, um tal silêncio
e olhos que calhou estarem fechados 

6.
MÚSICA DE ANÓNIMO DO SÉCULO XVII

Recebe a música de cada vez anónima
nos dedos que fogem e duram fulminantes
ou descansam de leve no instrumento etéreo
que chegou de um século seguinte
A vastidão do dia afina-se no embalo das vidas
são correntes de um ar que nos transporta
repercutido segredo extenso e de tão longe exposto
mas só agora plenamente alheio

in Música de anónimo, Companhia das Ilhas, 1.ª edição, janeiro de 2015, página 39.

5.
Dias e dias em que olhamos as margens
a simbólica, real escorrência
e trazes no sopro do ar, neste exacto ar
os versos que vêm e vão de oriente a oriente 

4.
PORTO, TRASEIRAS DA SÉ

para os meus pais

São nossos, tão de longe, esses olhos
Por aqui sempre ficaram
no esplendor reverso das traseiras
Longamente inscrevem, na luz que os enruga
a mais aérea e límpida gravura

Tudo o que da água sabe o filho de um peixe
assim nos ensinam, distraídos
a inclinar a cabeça, como evitar
a demorada disposição da terra
um tempo que em relances se acumula

Encontramo-nos todos nestes pátios
inocentes das nuvens que nos sabem
Há luzes que se acendem a espaços
pelo granito, caliça, ferros, aquela torre
Alguém de novo as vê uma primeira vez 

3.
Não se fala desta luz
a luz ilumina toda a
luz, luminosamente 

2.
Na noite das estrelas cravejadas
rasga o vazio a improvável luz 

1.
Só o fragor da queda nos prepara
para o detido correr dos dias 

Sete perguntas a José Manuel Teixeira da Silva

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