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João Pedro Mésseder (1957)

João Pedro Mésseder (1957)

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Tem a forma de uma árvore. Chama-se mãe. 

Ave:
Alada
a palavra solta
a veloz consoante do voo 

Em Maio o corpo reinstala-se no vestíbulo do Verão. 

Solavanco // Lavadouro de sóis. 

Soleira
Imposto pago (em memórias) pelos velhos sentados na manhã. 

Solvente
Diz-se do sol
que logra dissolver a noite
e inventar
o dia claro. 

À noite emigramos. E os sonhos são países onde falamos outra língua. 

O sonho não tem asas mas degraus para descer às criptas do ser. 

Tempestade: Ataque de espirros dos deuses. 

Gelam a noite os olhos ardentes do tigre. 

Que Abril se erga de novo
do frio e da tormenta
pois nada há que roube à primavera
o sangue que a alimenta.

O mar,
o meu mar.

todo o mar
do mundo
ao meu encontro. 

De quantas árvores
se faz um livro…

Por isso os folheio
devagar 

Pronuncia a palavra como quem
lentamente
a desmontasse
– cada sílaba
um segundo 

Diz-se das palavras
que cantam como água,
diz-se das histórias
que trabalham a memória
e que são como as amoras: 

Rio

As águas vêm de longe,
trazem o mundo,
os montes a terra as pedras 

Um livro

Levou-me um livro em viagem
não sei por onde é que andei
Corri o Alasca, o deserto
andei com o sultão no Brunei?
P’ra falar verdade, não sei 

Eppur si muove

Em escadas insalubres há corações que vacilam
e em quartos escondidos anoitece a escassez. 

FÔLEGO

Três sílabas
contra a morte 

Dizem que um escritor não tem biografia. Ou antes, que os únicos elementos da sua biografia com eventual interesse são as obras que escreveu. Quando ouço estas ideias repetidas por muitos escritores, dá-me logo para desconfiar e contrariar. Que é que querem? Sou assim. É por isso que aceito contar-lhes um pouco da minha vida, ainda por cima meio inventada, porque João Pedro Mésseder é nome literário, quer dizer, inventado (prefiro «nome literário» a «pseudónimo», vá-se lá saber porquê).

Nasci no Porto, a «invicta» cidade tantas vezes vencida – pela miséria, a desigualdade e a estupidez humana. Foi no ano da graça de 1957 – o que não teve graça nenhuma, porque onde eu estava bem era na barriga da mãe (quase que rima).

Lembro-me dos verões nas praias e piscina de Leça da Palmeira, com os meus primos e amigos. Foi lá que conheci a primeira namorada quando tinha oito ou nove anos. Chamava-se Solange, era doce como um anjo e encostava-se sempre a mim nos jogos que fazíamos na areia. Logo a seguir tive outra que se chamava Cristina. Nunca mais as vi.

Depois cresci e fiz amigos e tropelias no Liceu Alexandre Herculano, onde estudei e tive professores muito bons. Eram escritores, alguns deles: Agostinho Gomes, Luís Amaro de Oliveira, Lucinda Araújo, Maria Teresa Vale, Diogo Alcoforado.

Formei-me em Filologia Germânica (Inglês e Alemão) na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, mas não gostei, ou melhor, só gostei mais ou menos.

Antes de 1974, era um jovem estudante rebelde: lutava contra o fascismo do Salazar e do Marcelo Caetano, quer dizer, lutava contra a guerra nas colónias de África, contra a existência de presos políticos e contra a falta de liberdade e democracia no nosso país. Cruzando-me com muita, muita gente nas ruas, participei na Revolução do 25 de Abril e esses anos de 1974 e 75 foram os melhores da minha vida.

Ainda hoje preciso de fazer política. Ao lado dos mais pobres e injustiçados. Sempre. E quero dizer que estou de acordo com o Saint-Exupéry, quando ele afirma que os dois grandes inimigos da alma são o dinheiro e a vaidade.

Entretanto, continuei a envelhecer – que é o que todos nós fazemos, todos os dias. Casei com uma linda rapariga loira e tive dois filhos mais ou menos loiros: o Miguel e a Inês.

O que faço para ganhar «o pão-nosso de cada dia»? Dou aulas de literatura a futuros professores (os meus alunos são jovens adultos).

Mas, acima de tudo, gosto de ler, ouvir música, ir ao cinema, viajar. Os meus países favoritos são a Itália, a Grécia, Cuba, a França, a Espanha e o Alentejo (é verdade, é: embora seja uma região de Portugal, para mim o Alentejo é um país à parte).

Os meus melhores amigos são a Elisa e o Zé – porque, além da minha família, são as melhores pessoas que conheci em toda minha vida.

Ah, ia-me esquecendo de dizer que já escrevi diversos livros, sobretudo de poesia. Para crianças, jovens e adultos. A minha editora principal é a Caminho, de Lisboa. Mas também tenho livros na Campo das Letras e na Ambar.

E por agora chega. Quando for mais velho, conto o resto (se ainda estiver vivo).

P. S. Queriam saber o clube da minha preferência, não era? Mas não lhes digo.

Sito in http://www.nonio.uminho.pt/netescrita/autores/

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