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Ilídio Sardoeira (1915-1987)

Ilídio Sardoeira (1915-1987)

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6.
Onde iremos partidos ou chegados
Se no chegar se parte sem haver
Um tempo de partir e de largada.
E só um falso alarme alarma o ser?

Como sempre se chegado quisesse
E nunca se sonhasse de partida
Silencioso adeus a si se diz
Na mão que se despede em mão erguida 

5.
E palavras me teçam como a teia
Ao quebrar da fresca madrugada
Onde fique retido só de mim
Quanto de mim é resto em mão fechada.

Narciso não me quero no que escrevo.
Que me durem as noites nesta imagem
E encham meu espaço só de estrelas
Companheiras azuis de vãs viagens.

Que espelho é de mim este poema
Nunca polido de água ou pelo vento,
Fria cambraia onde me cuido ter
Como breve desenho em pensamento. 

4.
Um fruto em cada célula de mim
Ou do que nem se disse quando verbo
Metia nas sementes das palavras
As formas inconcretas do meu erro.

Porque futuro sou do que de futuro
Em mim se disse como voz alheia
Escrevo os versos de água sobre o dia
Os versos que se vão entre a areia.

3.
Deito-me no saber, acordo no sonhar
E nunca sei ao certo
Onde começa um ou onde acaba o outro

Sonhar é só voar sem asas nem espaço
Ir além do limite
De cada golpe de asa

E que é o saber se não aquele muro
Erguido contra a luz meridiana
Dos frutos por abrir?

Só assinar no chão o rosto de uma sombra
Se falta a cada sonho
A cor do impossível. 

2.
Por onde vou vai sempre quem não sou
E, quando chego, quem chegou por mim?
Tudo se muda se me mudo outro
Neste dizer que não dizendo sim. 

1.
Como barco perdido entre marés
Também me fui perdendo e encontrando
Fruto do dia e noite eis-me no rosto
Deste corpo de mim por mim chamando

Maresia de nervos e de mel
Com rosas rematadas de mil cores.
Irei contigo, Mundo, se quiseres,
Irei contigo, vida, onde tu fores. 

Ilídio Sardoeira (1915-1987) nasceu em Canadelo, Amarante, no dia 15 de novembro de 1815, e faleceu em Vila Nova de Gaia (St.ª Marinha) , no dia 28 de Novembro de 1987.
Licenciou-se em Ciências Biológicas. Foi professor e pedagogo, escritor e poeta, ensaísta e conferencista. Dirigiu os jornais Voz do Marão e Alma Nova, tendo ainda colaborado em publicações, entre as quais as revistas Vértice, Seara Nova, Labor, Lusíada e Átomo. Publicou: A minha Aldeia (1940), A Origem da Vida (1945), Poemas (1952), Evolução: Provas (1955), História do Sangue (1957), entre outros. Entre 1969 e 1976 colaborou
no jornal O Comércio do Porto, na página O Comércio Infantil. Pertenceu ao júri do Pré-
mio Teixeira de Pascoaes, nos anos de 1951 e de 1977. Foi deputado da Assembleia Constituinte pelo MDP/CDE e Bolseiro do Instituto de Alta Cultura (INIC), em 1977.

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