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Florbela Espanca (1894-1930)

Florbela Espanca (1894-1930)

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2.
Horas mortas… Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a benção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
— Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

1.
Ser a moça mais linda do povoado,
Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,
Ver descer sobre o ninho aconchegado
A bênção do Senhor em cada filho.

Um vestido de chita bem lavado,
Cheirando a alfazema e a tomilho…
Com o luar matar a sede ao gado,
Dar às pombas o sol num grão de milho…

Ser pura como a água da cisterna,
Ter confiança numa vida eterna
Quando descer à “terra da verdade”…

Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!
Dou por elas meu trono de princesa,
E todos os meus reinos de ansiedade.

Florbela Espanca nasceu em Vila Viçosa (1894). Considerada uma precursora da escrita sobre a emancipação feminina, deixou na sua obra marcas de grande riqueza interior onde são evidentes o sentir feminino e artístico, ao mesmo tempo que a insatisfação e a revolta. A sua vida, marcada por dois casamentos de insucesso, terminaria com o seu suicídio em Matosinhos (1930). Cursou Direito, em Lisboa, e deixou Livro de Mágoas (1919) e Livro de Soror Saudade (1923). Postumamente, foram publicados Charneca em Flor, Cartas, As Máscaras do destino e Dominó Negro (1931).

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