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Aurelino Costa (1956)

Aurelino Costa (1956)

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Florescer nos lagares de mosto
encontrar a cor púrpura no peito
lamber ao menor lampejo
o resto das bordas da cuba

pássaro e língua gotejam
agora impávidos olhando
um azul, que de tão cobalto
estorva

sobrevoa sim, em voo lento
um quadro de Nadir Afonso,
meu grande, predileto mestre

na lucidez da água sobre o teto
uma luz címbrica cola-se e cala
a boca ante o desejo da morte

que de tão bela se abre
ante a afronta e a esperança
que transformará

sobre a terra
uma gaivota poisa
um grão de mostarda
floresce

tudo geo-metricamente. 

9.
ARROZ DE DOMINGO

Vêm de um canto da sala,
as vozes e eu
vejo-as salubres sombras
nos altares
enquanto um caracol
nas paredes corre

mansamente, como a manhã
displicente ao sol

a água pinga de um ralo
extenso ao brio da boca
que dela se aproxima

ali onde a pia de (h)eras
coça o focinho da vaca
que aloira sob a estrela

minha deusa pura
mustang de virgem brava
dai-me a combustão das fontes
e as vagens seculares da infância

com elas, farei um arroz de Domingo 

8.
O DERRADEIRO SÍTIO

É um derradeiro sítio… O rio está
entre dois campos de milho. Meu pai
assobia… Ele sabe que eu não o vejo
se me visse ficaria parado a ver o rio?
Lembrei-me, ele nunca me leu
e isto magoa-me.
Nunca mais fomos os mesmos, não seremos
enquanto se falar de rios e de margens…
Vou ter de me despir se quero nadar
nu nas águas é a minha infância
coada pelo sol pendular dos ramos dos salgueiros…
Queria nadar, um parafuso, remoinho
de água e areia…
Um guarda-rios salvou-me de morrer afogado…
Passei a olhar a água com o respeito nobre dos assustados
desenhei para mim um fósforo de cera que ainda arde.
Como eu queria ser homem. Nessa altura fugia dos
que chutavam bolas de farrapos no chão.
Escrevi na lousa a palavra veleidade. Até hoje,
até queimar a vela!

7.
No saibro dos caminhos
a lama amareleja nas covas

Baloiça o mini

Setecentas covas
até ao destino

da íris

miraculosa… 

6.
Escrita de urze e de suor
cerzida no olhar da Maria

Ela e a vezeira atalham
o carreiro…

A eira ali, está
na ânsia bocal

do estio.

5.
Trago–te cerejas e violetas
ambas fazem parte da minha infância

4.
É inverno a alma,
o espólio

restam ratazanas 

3.
Cenouras nas árvores
em pampa lustrem as várzeas 

2.
É comovente, a tua poesia
chego a ter pena de ti e às vezes medo 

1.
Teu corpo
– ócio de alga e sal
na vastidão do azul 

Aurelino Costa (Argivai, Póvoa de Varzim,1956). Poeta, Diseur, Advogado.

Obra: Poesia Solar (Ed.Orpheu, Lisboa /92). Na Raiz do Tempo (Ed.Tema, Lisboa 2000). Pitões das Júnias – Tões de Aurelino Costa com Anxo Pastor-(Ed. Fluviais, Lisboa e Galeria Arcana/Vila Garcia de Arousa, 2002); Amónio (Ed. Do Buraco, Lisboa/03); Na Terra de Genoveva (Ed.Do Buraco,Lisboa/05)

Discografia: Na Voz do Regresso.(Edição comemorativa do centenário do nascimento de José Régio. Ed.C.M. da Póvoa de Varzim/01,com António Victorino D’Almeida, J. Moura, Abel G.e L.Veloso.

Publicações digitais:

http://incomunidade.blogspot.com (Portugal)
http://incomunidade.com.sapo.pt (Portugal)
http://www.gargantadaserpente.com (Brasil)

Antologias:
A Poesia é Tudo (Ed. Francisco Guedes / Correntes D’escritas/04)
Na Liberdade – 30 anos – 25 Abril (Garça Editores/Peso da Régua/04)
Vento/Viento -sombra de vozes/sombra de voces (Ed.C.M. do Fundão e C.E.L.Y.A/04)

sito in http://www.jornaldepoesia.jor.br/

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