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A loja de cima

A loja de cima

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ÀS vezes, quando o meu pai regressa do trabalho, manda-me ir comprar tabaco à Loja de Cima quando está de bem com a minha mãe. Isto acontecia pouco antes do jantar e eu ficava chateado, pois estava sempre cheio de fome e era capaz de comer um boi. Se os meus pais discutissem na véspera ou de manhã cedo antes de saírem para trabalhar, era ele que ia comprar tabaco e só chegava a casa por volta da meia-noite. Nessas noites, eu e a minha mãe jantávamos sozinhos. Ou melhor, eu jantava, ela mal tocava na comida. Quando regressava, o meu pai não conseguia meter a chave na fechadura à primeira e demorava muito tempo a abrir a porta. O aviso estava dado: a minha mãe entrava no meu quarto, afastava o meu corpo delicadamente (eu fazia sempre de conta que estava a dormir) e enfiava-se na minha cama. Mal o meu pai entrava em casa, ela choramingava alto para o meu pai ouvir e ficar com remorsos.

A minha mãe acabava por dormir toda a noite na minha cama e apesar de gostar de encostar os meus pés aos pés dela, eu acordava a meio da noite com ela a ressonar ou a soltar bufas que apesar do cheiro me aqueciam os joelhos e as frieiras dos pés. A minha avó diz que só ressona quem tem algo que o preocupa, o que no caso da minha mãe até pode ser verdade. Ela levanta-se sempre antes de mim, gosto de cheirar o travesseiro dela, o cabelo da minha mãe cheira sempre muito bem. Se por acaso me perguntarem do que é que eu gosto mais, eu respondo sem gaguejar como às vezes gaguejo quando fico nervoso que prefiro as noites em que o meu pai me pedia para ir comprar tabaco à Loja de Cima, pois ficava quase sempre com o troco que gastava no dia a seguir em chiclas ou em rebuçados São Brás.

A Loja de Cima é o sítio onde os homens e algumas mulheres do Monte se juntam para beberem vinho até adormecerem em cima das mesas ou até se espalharem pelo chão de cimento que tinha pequenas poças de vinho tinto aqui e ali. O Monte é o sítio onde vivo, é uma colina mais ou menos grande, tem quase a mesma altura da Serra do Pilar, só que esta é mais conhecida por causa do Mosteiro. O Monte fica encravado entre velhos armazéns do vinho do Porto e quase ninguém sabe onde fica. É uma espécie de mini-principado da vinhaça. A Loja de Cima parece mais uma tasca do que uma loja. Além de vender vinho que está entre o mau e o assim-assim (eu sei porque já provei várias vezes, daqui a pouco conto-vos como tudo começou), vende várias coisas como conservas, azeite, óleo, arroz, massa, sabão, lixívia, detergentes, tabaco, chiclas, rebuçados. Todo o Monte tresanda a vinho, deveria chamar-se “Monte do Vinho”, antigamente chamava-se Monte dos Judeus, eu e as outras pessoas que aqui moram chamamos-lhe apenas de Monte. Na Loja de Cima, fica-se meio bêbado só de respirar o ar. À noite, a nuvem de fumo é tão espessa que não deixa ver as caras dos homens que estão sempre aos berros uns com os outros, seja por causa do futebol, da política, do trabalho, etc., estão sempre a discutir por tudo e por nada.

Ainda não deveria ter sete anos quando, num fim de tarde, resolvi entrar sozinho na Loja de Cima para provar vinho, só que não tinha dinheiro nenhum comigo e o seu Manel não queria vender-me fiado. A Loja tinha pouca clientela a essa hora.

– Boa tarde, seu Manel. Arranje-me aí um copito.
– Não pode ser rapaz, põe-te a andar.
– Eu depois pago-lhe. Vá lá, só um copito.
– Mas quantos anos tens?
– Eu, seu Manel? Vou fazer onze anos para o mês que vem.
– Então volta aqui quanto tiveres dezoito. Mas volta com dinheiro.
– O meu pai vem aqui muitas vezes, não vem seu Manel?
– Às vezes.
– Então ponha na conta do meu pai, ele depois paga.
– Não senhor, vá, andor daqui pra fora.
– A sua mulher, não está?
– Não, não está. O que é que querias dela?
– Nada, era só para saber se estava tudo bem com a sua senhora.
– Sim, está tudo bem, rapaz.
– E com a Marlene?
– Também, ela está lá em cima a fazer os deveres.
– Ah muito bem, seu Manel. E então, esse copito, vem ou não?
– Não, não vai nem vem.
– Outro dia vi o Tainha a comprar quentuques aqui.
– Quem?
– O Jorge, o Tainha.
– Não vistes, não senhor.
– Vi, vi. Olhe e o Tozé, tá melhor do braço?
– Sim está melhorzito. Rais parta a canalha e mais as vossas brincadeiras.
– Mas já tirou o gesso?
– Não ainda não.
– Então está na mesma.
– Vai tirar para a semana.
– Como nunca mais o vi…as melhoras para ele. É bom moço. Pode tirar-me mais um seu Manel.
– Mais um quê?
– O costume, seu Manel.
– Mas qual costume qual quê, rapaz, estás maluco. Vá, dá lá meia volta senão faço queixa de ti ao teu pai.
– Ele sabe que eu bebo.
– Ai sim?
– Sim, ele já me deixa beber à mesa.
– Mas aqui não bebes. Se vieres com o teu pai e ele te deixar, aí sim.
– Quase que ganhávamos ontem, não foi, seu Manel?
– Poça, nem me fales, estava a ver que quase partia o raio da televisão.
– Pois foi. Olhe dê-me aí uma garrafa de maduro tinto, seu Manel.
– Tens aí a garrafa vazia? Senão tens de pagar o envasilhame.
– Tenho seu Manel, está aqui.
– Ponha na conta da minha mãe.
– A tua mãe não tem conta aberta aqui.
– Passa a ter. Foi ela que me disse para lhe dizer a si.
– Está bem.
– Obrigado seu Manel, até amanhã.
– Até amanhã.

E foi assim que provei vinho pela primeira vez. Não gostei muito à primeira, mas depois soube-me bem. Tinha estado toda a tarde a jogar à bola com a rapaziada, estava cheio de sede e nunca gostei de beber água. Escondi a garrafa na rua da Ramada Alta, enfiei-a num daqueles buracos dos muros e depois tapei-a com silvas. Lembro-me que deixei ficar um fundinho para o dia seguinte.

Texto de Pedro Amaral e ilustração de Rui Ricardo

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