NÃO parece mais do que o protótipo escultural de um guerreiro do Império Romano, modelado em pedra. Poucos sabem da sua existência, mas há pelo menos duas gerações que o conhecem bem. Pessoas que, desde criancinhas, se habituaram a conviver com o Homem de Pedra, nas suas brincadeiras inocentes.

Diz a lenda que o soldado petrificado assim ficou há centenas de anos, aquando os exércitos romanos passaram por aqui, a caminho de Bracara Augusta.

A Quinta da Marta tem-no bem guardado e nunca contou a ninguém que foi este homem quem a baptizou, dando-lhe um nome nesse longínquo tempo.

Virado para o rio Douro, vai assistindo à passagem dos barcos, enquanto se mantém como um vigilante e real soldado no seu posto, fiel à sua amada terra de adopção.

As fuinhas, espécie de martas, viviam nessa encosta virada ao rio. Antes havia por lá muita caça. Lebres e coelhos abundavam em terreno onde a água corria das nascentes, como ainda hoje acontece.

Certo dia, uma curiosa marta assistia à passagem por ali, do exército romano. Lembro que o caminho de Santiago ou Estrada de Santiago desemboca numa encruzilhada ali muito perto.

As armaduras dos soldados reluziam sob a luz solar e, fascinada por esse deslumbrante brilho, a referida marta, junta com as suas três crias, veio ao encontro do pelotão de guerra e fê-lo estancar abruptamente. O Centurião que comandava a legião de infantaria, posto ao corrente de tão inusitado percalço, talvez num gesto de compaixão, ordenou que um soldado, que vinha já doente, ficasse a tratar da fuinha e dos seus pequenos filhos, poupando-o à longa caminhada que tinham pela frente. Assim aconteceu, mas devido às imensas e sempre colossais cheias do rio Douro e do Rio Mau, o militar, ainda não curado, não conseguiu reencontrar o seu batalhão, e por aqui ficou durante algum tempo.

Diz a lenda, quase como se falasse muito baixinho apenas para as crianças pequeninas ouvirem, que o soldado romano agonizou passado pouco tempo. E que foram as martas as suas únicas companheiras, nos dias que lhe antecederam a partida deste mundo.

Há quem conte que o seu corpo morto foi tão acarinhado pelos pequenos animais que, ungindo-o com saliva, o transformaram em pedra.

As lendas e as fábulas são berçários, onde todos nos podemos reencontrar com a memória do que fomos em crianças, e neles adormecer em paz como os anjos.

SOBRE O AUTOR: Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do Douro; Douro Inteiro;  Douro Lindo; A Ninfa do Douro; Palavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook,  Amanhecer e Barcos de Papel, estes dois últimos de poesia. Colabora com o Correio do Porto desde junho de 2016.

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