2221
0
COMPARTILHAR
Inicio Miradouro Flor do Douro...

Flor do Douro

Flor do Douro

0
2221

É AQUI que eu moro nesta reentrância de paz e de silêncio. O rio é o meu confidente, ouve-me, permite-me esvaziar a solidão que só um barco sabe como é triste, dura e devastadora de sonhos. São dias, meses e anos fundeado neste pedaço do rio sob os rigores dos Invernos em que o caudal aumenta e a força da corrente ameaça rebentar as amarras que me seguram à margem e solto, ir desfazer-me de encontro às pedras.

Na Primavera tenho sempre companhia. Flores silvestre brotam aos milhares em meu redor, enfeitam-me, fazem-me sentir feliz. Os pequeninos miosótis são um encanto e formam um tapete de verde e azul em volta dos troncos dos centenários e frondosos sobreiros que proporcionam sombra nos dias mais quentes. As aves fazem os ninhos nessas e em outras árvores que cobrem este maravilhoso recanto. Há uma cantoria permanente em cada amanhecer, são melodias únicas, concertos musicais inimitáveis e de uma sonoridade tão bela que só é possível imagina-la num sonho. Às vezes passam por aqui barcos como eu e outros de maiores dimensões que provocam ondulações mais fortes do que as das suaves brisas que apenas me embalam. Então transformo-me, deixo por momentos de ser um troco de madeira à deriva para me metamorfosear em delicada ave, num cisne inspirador de orquestrações musicais de sonho ou elegante garça-cinzenta igual às que muitas vezes procuram protecção em cima do meu corpo e ali dormem toda a noite protegidas. Sim descendo de uma árvore como estas que me acompanham perfiladas nas margens do rio. Sou feito de terra e de água como os humanos.

Ainda navego ao longo deste maravilhoso curso de água. Percorro lugares inacessíveis por terra, sinto que o rio sente e partilho com ele a minha vida.

Um dia acabarei aqui neste recanto a ver passar jovens embarcações carregadas de gente que vai conhecer o Alto Douro, a escutar os maviosos sons da natureza, a deixar que um dia  seja ela a fechar-me os olhos para sempre. O rio Douro ficará por aqui a recordar-me e haverá noites em que feliz, caminharei sobre as suas águas como se fosse um barco.

Por Manuel Araújo da Cunha

Partilha

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here