1365
0
COMPARTILHAR
Inicio Miradouro Era um dia de...

Era um dia de Maio

Era um dia de Maio

0
1365

NÃO SEI SE FORAM RECORDAÇÕES ou traumas de uma infância infeliz que fizeram esse senhor aparentemente importante regressar ao fim de tantos anos ao lugar onde nasceu e habitou até se fazer homem. O que sei é o que me contou o Sr. Engenheiro, isso é o que verdadeiramente tem significado para mim, é a constatação de uma realidade que foi vivida num passado ainda recente e da qual, alguns filhos e netos dessa gente antiga já morta, não querem ouvir falar agora. Preferem esquecer, deixar sepultada no pretérito, a carta mestra das suas origens, a matriz onde tudo se processou um dia. Não sei se por constrangimento em assumir a herança ou se por que os tempos de agora não se compadecem com memórias que julgam minimizá-los aos olhos de um mundo sem afectos. Mesmo conhecedor dessa realidade objectiva que nunca compreendi, eu conto-te o que ele me contou, sentados os dois à tua beira.

“… O meu pai era pescador, tinha um barco, uma rede a quem dedicava muitas horas do dia e uma enorme força de vontade na realização dessas tarefas.

Lembro-me dos meus tempos de criança em que tiritava com frio e com fome, Se me perguntassem hoje como consegui sobreviver a essa época de absoluta miséria, julgo que não encontraria as palavras adequadas para definir semelhante privação de tudo o que era essencial para poder resistir e chegar à condição de homem adulto. Confesso que não sei mesmo.

Saí daqui aos vinte e dois anos, tornei-me um outro homem longe deste local de onde sou filho e, sempre tentando dissimular o sofrimento do passado, esqueci tudo o que me fazia lembrar Rio Mau, os rios e os montes.

Os anos passaram, foram quarenta e cinco a viver numa outra pátria onde confesso, fui quase feliz. A vida proporcionou-me tudo o que constava na carta das minhas ambições e, se alguma vez senti alguma nostalgia dos meus tempos de criança e juventude, foi um sentimento momentâneo, uma ténue recordação logo abafada por lembranças dolorosas que a todo o custo eu queria destruir e esquecer.

Nunca poderei explicar por que me encontro aqui hoje. Foi uma espécie de apelo, um súbito desejo de voltar, uma força interior que nasceu espontaneamente e à qual, por mais que tentasse não consegui resistir. Dizem que quem nasce à beira do rio douro, fica preso para sempre ao lugar onde nasceu, que embora a vida nos leve para sítios remotos onde nada nos faça recordar o passado, um dia chega em que a apelação do rio é tão forte que só mortos lhe podemos resistir. Julgo que foi o que aconteceu comigo, tenho quase a certeza de que este nó que se me formou na garganta e foi apertando cada vez com mais força ameaçando sufocar-me e que só aqui afrouxou, tem a ver com esse desígnio que a natureza impõe aos filhos desta terra.

Então voltei e, se quer saber o que senti quando o meu olhar avistou o rio e as casas, apenas lhe digo que foi como se me tirassem do peito um peso enorme que me esmagava o coração. Nenhumas palavras podem definir a sensação de liberdade que experimentei e a paz que de repente se instalou em todo o meu ser. Foi como se estivesse estado morto estes anos todos e agora ressuscitasse.

Todas as imagens desse tempo a reclamar de mim uma visão e, o filme da minha vida começou-me a ser projectado na mente desde o princípio de tudo. Quero contar-lhe apenas uma história retirada do cofre das centenas que lá dentro conservo.

Sinto este desejo de partilhar com alguém instantes desse passado talvez na tentativa vã de me redimir do pecado do esquecimento, de dizer-lhe a si que nem sequer conheço, que sou filho desta terra, que este rio me corre nas veias e que sinto remorso de ter pensado que era possível esquecê-lo. Deixe-me contar-lhe uma história, apenas uma para que melhor compreenda as minhas angústias:

“Era um dia de Maio, o sol desabrochava por cima das serras e iluminava a pequena aldeia onde nasci. Como todos os dias, o meu pai e a minha mãe pescavam no rio o peixe que constituía a única forma de ganha-pão conhecida. Fui assistir ao recolher das redes na esperança de que a pescaria fosse abundante e sobrasse algum peixe com que poderíamos matar a fome.

O barco vinha ao sabor da corrente, a minha mãe remava enquanto o meu pai, debruçado sobre a proa, recolhia a rede vagarosamente como se de um ritual por ele há muito conhecido se tratasse. Ele conhecia as artes de pescar e envolvia-se de alma e coração nessa tarefa árdua, nesse estranho bailado que fazia com o rio de cujo artifício solene nunca percebi.

O barco, o meu pai, a minha mãe, o rio e a rede, deixavam por algum tempo de ser apenas os actores de uma peça assombrosa que se repetia constantemente para se me afigurarem personagens de um acontecimento único, um jogo de sorte e azar, cruel como todos os jogos e ao mesmo tempo doce e admirável por que nele se jogava a vida e a morte.

Grandes eram os esforços dos dois em perfeita sintonia no recolher da armadilha que, quanto mais se aproximava de terra maior dificuldade apresentava devido ao peso que adquiria molhada.

O barco chegou, os dois saltaram para a areia e, fincados a esse chão que se movia, iam arrastando as artes feitas de fio de sisal, patelas de pedra e rodelas de cortiça, para fora das águas do rio.

A rede recolheu, o barco balançava sozinho encalhado nos godos e um peixe saltitava na areia da praia. Sorri, finalmente havia alguma coisa com que matar a fome, o rio tinha sido generoso, deu-nos um sável grande e já me imaginava a comê-lo à noite sentado em volta da lareira.

Corri para ele feliz e alegre, agarrei-o pelas guelras e levantei-o no ar como quem exibe um troféu de grande batalha quando o meu pai me interpelou:

— Deixa estar aí o peixe filho, vai para a pensão da Foz, precisamos de dinheiro para comprar remédios para o teu irmão!

Desiludido tentei que o meu pai usasse mais uma vez a rede:

— Dei-te outra vez a rede pai, pode ser que apanhes mais um para a gente comer, só mais um lanço pai!

Ele não me respondeu, limpava a armadilha dos muitos lixos que se prendiam nela com os olhos fixos num lugar que nunca conheci e que só ele conseguia vislumbrar.

Olhei para o rio decepcionado, perdera o alimento mas compreendi nesse dia a força da palavra solidariedade, o fazer da tripas coração na dádiva aos semelhantes e que, não basta ter um barco e uma rede para pescar, que é preciso muito mais para se poder sobreviver num mundo tão feroz onde tudo o que se consegue pode já estar comprometido.”

Nisto um barco velho apareceu a boiar nas tuas águas, uma mulher remava e um homem sentado na proa assobiava uma melodia ao mesmo tempo que consertava as redes tranquilamente.

— Ainda há barcos de pescadores? — Perguntou-me surpreendido o Sr. Engenheiro.

— Não ligue, são fantasmas, é o rio a brincar com a gente! Não se pode falar alto, ele ouve tudo e depois começa também a contar-nos as suas histórias! — Respondi.

Ele olhou para mim visivelmente transtornado e incrédulo, aposto que pensou que eu era também uma alucinação igual à que acabara de assistir sem perceber que o tinhas reconhecido e acabavas de o absolver do crime de ele te ter abandonado.

— Ah! rio Douro, quanto de ti são lágrimas de gente da minha terra, sofrimento e amargura que tu às vezes transformavas em pão e sorrisos de alegria! É por isso que te quero tanto e te guardo como preciosidade num cantinho do peito!

Por Manuel Araújo da Cunha publicado originalmente in Palavras – Conversas com um rio, edição Edium Editores, março 2011.

Partilha

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here