in memória de Aida da Rocha Moreira, minha ama
JÁ não tenho aqui casa há muitos anos, nem aqui nem em lugar nenhum deste mundo mas quando por aqui passo, absorvo o ar nítido da minha meninice, converso com uma ou outra velha árvore do meu tempo que, como eu, resistiram à orfandade dos dias. Falamos do antes e do depois, de quando a água corria nas fontes sem ter fruição de ninguém e os pássaros dormitavam nos olhos das crianças. Também com as pedras, repositórios do coçar das roupas de gente que nelas se sentou e já desapareceu na transparente poeira do tempo.

Os meus olhos tentam inutilmente a miragem do pequenito que corria descalço por estas ruas de cascalho à procura do céu.

Às vezes por entre as pinceladas das vistas com que a memória pinta o magistral quadro derradeiro, vejo a minha mãe a olhar-me misericordiosa como se eu fosse ainda o seu filho tresmalhado que acabava de regressar à casa onde nasceu, amparado mais uma vez pela amável e gentil Aidona,  Aida de seu nome próprio. Aidona foi o nome que adoptou para evitar confusões com a minha irmã Aida que vivia na mesma casa, doce  ama que me deu amor, colo como se eu fosse seu filho e deliciosas e nutritivas sopas de vinho quentes depois de toda água que corria e ainda corre tímida no ribeiro e nos rios aqui perto. Às vezes confundia-as, julgava que tinha voltado ao ventre materno confortado e embalado pela cantiga que me segredava aos ouvidos, julgava que aquele colo era o da minha própria mãe e adormecia nele como um anjo.

Nunca consegui prender a minha mãe num sonho. Tenho-a às vezes por uns escassos segundos, consigo definir-lhe os contornos do rosto, os olhos por repetidos nos meus, o sorriso que enchia a casa toda, os cabelo selvagens pintados de branco pelo tempo, as mãos que acarinhavam e desfiavam infinitamente contas de um rosário, mas perco-a logo a seguir devorada pela luz de um esplêndido amanhecer que como uma ilusão, me promete momentos de felicidade.

A casa existe aqui ainda, tem algumas pedras confidentes da nossa história de família debruçadas sobre o chão da estreita rua onde semeei o futuro sem sucesso.

E eis-me de novo peregrino da memória a olhar as pessoas e as coisas da minha infância, a tocar-lhes com os dedos como um cego que procura tacteando, identificar o rosto de uma mãe que adora e que nunca viu ou como alguém que carinhosamente percorre e deixa os dedos presos para sempre nos lábios de quem ama.

In Barcos de Papel

SOBRE O AUTOR: Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do DouroDouro Inteiro;  Douro LindoA Ninfa do DouroPalavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook;  Amanhecer; Barcos de PapelCasa de Bonecas e Crónicas de outro Mundo. Colabora com o Correio do Porto desde junho de 2016.

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