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Andorinhas por Ramón Gómez de la Serna

Andorinhas por Ramón Gómez de la Serna

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A andorinha encolhe os ombros a meio do voo.

As únicas que sabem de arquitetura comparada são as andorinhas.

A andorinha chega de tão longe porque é flecha e arco ao mesmo tempo.

A andorinha é uma flecha mística à procura de um coração.

As andorinhas abrem as folhas do livro da tarde como incessantes abre-livros que nos trouxeram de Alexandria.

As andorinhas põem o céu entre aspas.

As andorinhas são os pássaros vestidos de cerimónia.

As andorinhas recolhem aos ninhos muito antes do escurecer, porque lhes repugna serem confundidas com os morcegos.

Andorinha: bigodes postiços do ar.

A hora em que as andorinhas saem da escola.

As andorinhas imitam com os seus guinchos e silvos o travar dos carros quando param as suas quatro rodas frente ao portal do verão.

A andorinha banha-se um instante na água como a mão que mergulha na pia da água benta e depois traça a persignação do seu voo.

Três andorinhas no fio do telégrafo são o alfinete no decote da tarde.

Todas as primaveras trazem um cone de andorinhas e abre-o para que suceda a magia da reprodução do céu que proclama a continuidade da vida sobre a continuidade da morte.

A andorinha é escritura, traços e vírgulas reunidos pela caneta expedita do escriva espalhado do destino.

A andorinha que dá a volta rápida à esquina parece que leva no bico um alfinete de dama que o necessita com urgência.

A andorinha marca de imortalidade o nosso passo pela terra e põe o selo alegre no nosso passaporte, que não será válido se não levar esse parênteses que voa.

As andorinhas brincam ao escorrega do ar.

As primeiras andorinhas saem dos olhos negros das jovens.

Uma coisa que não sei se sucedeu alguma vez: que uma andorinha tenha entrado pelo buraco de uma guitarra pendurada.

A andorinha é uma seta mística vinda do Céu.

A andorinha ao voar faz de bêbada mas não está bêbada.

As andorinhas cortam com a tesoura das suas asas o fato da tarde.

As andorinhas mal roçam o tanque como se quisessem só benzer-se com a água.

As andorinhas bordam no céu dos seus voos o manto que pensam oferecer à Virgem.

Por Ramón Gómez de la Serna publicado in Greguerías, Catedra Letras Hispânicas, 17.ª Edição 2014

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