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Wallace Stevens (aforismos)

Wallace Stevens (aforismos)

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1.
O sucesso como resultado do trabalho é um ideal rural.

2.
O sucesso consiste em ser feliz como o sábio.

3.
Suponhamos que um homem cujo espírito tenha sobrevivido havia consultado seus contemporâneos sobre o que fazer, o que pensar, que música escrever, e assim por diante.

4.
A longo prazo, a verdade não importa.

5.
Deve ser dito da poesia que é essencialmente romântica como se estivéssemos reconhecendo a verdade sobre ela pela primeira vez. Embora ao romantismo se atribui, na maioria das vezes, um sentido pejorativo, este sentido corresponde, ou deveria corresponder, não ao romantismo em geral, mas a uma certa fase do romantismo que se tornou caduco. Assim como há sempre um romantismo potente, também haverá sempre um romantismo impotente.

6.
Ex divina pulchritudine esse omnium derivatur (derivam da beleza divina todas as coisas) e, acima de tudo, a poesia. Ao refletir sobre isto relacione-se com a associação de poesia e prazer e, também, em associação com o l’instict du bonheur. Se a felicidade está em nós mesmos, a beleza divina também, e a poesia é uma revelação ou um contacto.

7.
A poesia cria uma existência fictícia num plano requintado. Esta definição deve variar conforme o plano varia, já que um plano requintado é meramente ilustrativo.

8.
Uma objecção à originalidade na poesia é uma objecção à própria poesia, porque a originalidade é inerente a ela. Renard escreveu a Rostand que um dos seus livros era “jeune, surprenant, émouvant et joli. (jovem, surpreendente, comovente e bonito)” O original é o surprenant, inclusive émouvant.

9.
A felicidade é uma aquisição.

10.
O progresso, em qualquer um dos seus aspectos, é um movimento através das variantes da terminologia.

11.
A busca suprema é a busca da felicidade na terra.

12.
L’art d’être heureuse. (a arte de ser feliz)

13.
O General-Beichte de Goethe foi escrito sobre alguém que “recitava três mil provérbios e cujas canções somavam mil e cinco. De Goethe os provérbios brotavam incessantemente”.

14.
Cada idade é como um casulo das pombas.

15.
O fluir da consciência é individual; e da vida é total. Ou, o fluir da consciência é individual; e da vida, total.

16.
Dar uma sensação de frescura ou vivacidade à vida é um propósito válido para a poesia. Um propósito didáctico justifica-se na mente do professor; um propósito filosófico justifica-se na mente do filósofo. Não é que um propósito seja mais justificável que o outro, mas que alguns propósitos são puros e outros impuros. Procurar esses fins puros são os propósitos do poeta puro.

17.
O poeta faz vestidos de seda sem bichos-da-seda.

18.
O público do poeta. O público do organista é a igreja onde improvisa.

19.
O mérito dos poetas é tão aborrecido como o mérito das pessoas em geral.

20.
Os autores são atores; os livros são teatros.

21.
Um ponto de vista atractivo: os aspectos da Terra com interesse para o poeta são casuais, como a luz ou a cor: imagens.

22.
As definições são relativas. A noção de absolutos é relativa.

23.
A vida é uma questão de pessoas, não de lugares. Mas para mim, é uma questão de lugares e esse é o problema.

24.
A sabedoria não pede nada.

25.
Parfait Martinique: mousse de café, rum e um pouco de nata por cima.

26.
A literatura é a melhor parte da vida. Perante isto parece inevitável acrescentar que a vida seja a melhor parte da literatura.

27.
O pensamento é um vírus. Certos pensamentos tornam-se epidemias.

28.
É a vida aquilo que tentamos alcançar com a poesia.

29.
Quando deixamos de acreditar em deus, a poesia é a essência que ocupa o seu lugar para salvar a vida.

30.
A arte é, a maioria das vezes, uma forma de vida ou som ou cor da vida. Considerada como forma (em abstrato) muitas vezes não se distingue da própria vida.

31.
O poeta parece conferir a sua identidade ao leitor. Isto é mais fácil de reconhecer quando se ouve música. Refiro-me a este tipo de coisa: a transferência.

32.
A precisão na observação é o equivalente à precisão de pensamento.

33.
O poema é um meteorito.

34.
Um pensamento de fim da tarde é como um dia límpido.

35.
A perda da linguagem cria confusão ou mudez.

36.
A recolha de poesia sobre a experiência da própria vida não é a mesma coisa do que escrever mera poesia.

37.
A relação da arte com a vida é de capital importância sobretudo numa época de cepticismo, já que na ausência da crença em Deus, a mente recorre às suas próprias criações e examina-as, não só do ponto de vista estético, mas por aquilo que revelam, por aquilo que validam ou invalidam, pelo apoio que aquelas dão.

38.
Um tema grandioso não é garantia de um efeito grandioso, mas, com toda a probabilidade, o oposto.

39.
A arte envolve muito mais do que o sentido de beleza.

40.
A vida é o reflexo da literatura.

41.
À medida que a vida se torna mais terrível, mais terrível se torna a literatura.

42.
Poesia e matéria poética são termos permutáveis.

43.
O uso é tudo. (Les idées sont destinées à être déformées à l’usage. Reconnaître ce fait est une preuve de désintéressement. George Braque, Verve, N.º 2). (As ideias estão destinadas a ser distorcidas com o uso. Reconhecer este facto é uma prova de desinteresse.

44.
A imaginação deseja ser mimada.

45.
Um novo significado é o equivalente a uma nova palavra.

46.
A poesia não é nada pessoal.

47.
A terra não é uma construção, mas um corpo.

48.
A forma é um elemento adicional.

49.
Um romântico morto é uma falsificação.

50.
O romântico não pode ser penetrado: enquanto não houver vontade para ser penetrado.

51.
A poesia é uma forma de redenção.

52.
A poesia é uma forma de melancolia. Ou melhor, a melancolia é uma das “aultres choses solatieuses.”

53.
O poeta deve mostrar-se o menos possível como a besta miraculosa e, nos melhores momentos, como o homem miraculoso.

54.
(Poeta,) alimenta os meus cordeiros.

55.
O real é unicamente o princípio. Mas é o princípio.

56.
A vida não pode ser baseada numa teoria, já que, por natureza, é baseada no instinto. A teoria, porém, está presente e existe na luta entre a teoria e o instinto.

57.
O poema revela-se somente ao homem ignorante.

58.
A relação entre a poesia da experiência e a poesia retórica não é a mesma coisa que a relação entre a poesia da realidade e a da imaginação. A experiência, ao menos no caso de um poeta de certa envergadura, é muito mais ampla que a realidade.

59.
Em grande medida, os problemas dos poetas são os problemas dos pintores e os poetas muitas vezes cuidam da literatura sobre pintura para falar dos seus próprios problemas.

60.
O estado do tempo é um sentido da natureza. A poesia é um sentido.

61.
A abstracção faz parte do idealismo. E nesse sentido é desagradável.

62.
Há dois opostos: a poesia de retórica e a poesia da experiência.

63.
Na poesia ao menos a imaginação não deve desvincular-se da realidade.

64.
Nem todos os objectos são iguais. O vício do imagismo foi não nos ter avisado disso.

65.
O poeta deve prestar tanta atenção à sua poesia como, por exemplo, o viajante à sua aventura, o pintor à sua pintura.

66.
Toda a poesia é poesia experimental.

67.
O contraste está entre a imagem nua e a imagem como símbolo: a imagem sem sentido e a imagem com sentido. Quando a imagem é usada para sugerir outra coisa é secundária. A poesia, como uma coisa imaginativa, vai mais além das aparências.

68.
A política é a luta pela existência.

69.
O que não está ao alcance da sensibilidade não existe na realidade. E isto muda segundo cada um.

70.
Na poesia, devemos gostar das palavras, das ideias, das imagens e do ritmo com toda a nossa capacidade para amar qualquer coisa.

71.
O individual participa do todo. Salvo em casos extraordinários em que não acrescenta nada.

72.
O que conta é a crença não o deus em que se crê.

73.
Uma viagem no espaço equivale a uma viagem no tempo.

74.
As coisas parecem-se com o que se vê. Absolutamente real.

75.
Nem todos os objectos são iguais.

76.
O que vemos mentalmente é tão real como aquilo que vemos pelos olhos.

77.
A poesia deve ser irracional.

78.
O propósito da poesia é fazer a vida completa em si mesma.

79.
A poesia aumenta a sensibilidade para a realidade.

80.
A mente é a coisa mais poderosa do mundo.

81.
Não há nada na vida excepto aquilo que pensamos dela.

82.
Um futuro novo sai em conta.

83.
A poesia é uma forma de melancolia.

84.
Não há nada mais belo na vida do que a vida.

85.
Não existem asas como o significado.

86.
A poesia não é um assunto pessoal.

87.
Considerem:
I – Todo o mundo é matéria para a poesia.
II – Não existe uma matéria poética especial.

88.
Lê-se poesia com os nervos.

89.
O poeta é o intermediário entre as pessoas e o mundo em que vivem e, também, entre as pessoas entre si, mas não entre as pessoas e outro mundo.

90.
O sentimentalismo é o fracasso do sentimento.

91.
A imaginação é romantismo.

92.
A poesia não é a mesma coisa que a imaginação em separado. Nada existe em separado. As coisas existem por causa das relações com outras coisas.

93.
A última crença é acreditar numa ficção, que acreditamos ser uma ficção, somente isso. A verdade estranha é saber que é uma ficção e nós acreditarmos de bom grado nela.

94.
I – Todas as nossas ideias vêm do mundo natural: árvores = guarda-chuvas.

95.
II – Não existe nada tão ofensivo para um homem de princípios como um pensamento sem princípios.

96.
O vinho e a música não são bons antes do final da tarde. Mas a poesia é como uma prece que se torna mais eficaz na solidão e nos momentos de solidão, como, por exemplo, nas primeiras horas da manhã.

97.
A intolerância com a religião dos outros é tolerância se comparada com intolerância com a arte dos demais.

98.
O grande objectivo é a verdade não só do poema como da poesia.

99.
A poesia é uma concepção poética, da forma que se queira. O poema é poesia expressa com palavras. Mas num poema existe a poesia das palavras. Obviamente, um poema pode conter várias poesias.

100.
Uma parte da verdade do mundo tem origem no sentimento.

101.
A exposição de uma teoria sobre poesia envolve comparação com outras teorias e análise de todas.

102.
A ética tanto faz parte da poesia como da pintura.

103.
A poesia é a expressão da experiência da poesia.

104.
Outros valores para além dos que resultem da visão e da audição.

105.
Seelenfriede durch Dichtung (Paz de espírito através da poesia)

106.
O ideal é o real anémico. O romantismo muitas vezes é a mesma coisa.

107.
À medida que a razão destrói o poeta cria.

108.
O estranho ambiente do facto. O poema final há de ser o poema do facto escrito na linguagem do facto. Mas será o poema do facto ainda não realizado.

109.
Nós vivemos na mente.

110.
O poeta tem de ter algo natural e deve saber muito mais acerca do mundo por causa disso.

111.
O poeta sente abundantemente a poesia de tudo.

112.
Viver no mundo, mas fora das conceções existente sobre dele.

113.
São as explicações que damos das coisas que revelam o nosso caráter:
Os temas dos poemas são os símbolos do sujeito ou um dos seus eus.

114.
A poesia há de ser mais do que uma concepção da mente. Há-de ser uma revelação da natureza. A concepção é algo artificial. As percepções são essenciais.

115.
O poema devia fazer parte do entendimento que temos da vida.

116.
Ler um poema devia ser uma experiência como experimentar um ato.

117.
Não há diferença entre deus e o seu templo.

118.
A guerra é o fracasso periódico da política.

119.
O dinheiro é uma espécie de poesia.

120.
A poesia é um esforço do homem insatisfeito para encontrar satisfação através das palavras, ocasionalmente do pensador insatisfeito para encontrar satisfação através das suas emoções.

121.
Não é todos os dias que o mundo se organiza num poema.

122.
A morte de um deus é a morte de todos os deuses.

123.
Na presença da realidade extraordinária, a consciência ocupa o lugar da imaginação.

124.
Tudo tende para ser real; ou tudo move-se em direção ao real.

125.
Há um aspecto intensamente pejorativo sobre a ideia do real. Deveria ser ao contrário. A poesia é real.

126.
Ninguém escreve a não ser para si.

127.
Cada homem morre na sua própria morte.

128.
O escritor que se satisfaz a destruir está no mesmo plano do escritor que se satisfaz a traduzir. Ambos são parasitas.

129.
A coisa que se diz deve ser o poema não a linguagem usada para dizer isso. No seu melhor o poema contém estes dois elementos.

130.
De certo modo, o poeta olha o mundo como um homem olha uma mulher.

131.
Não ter nada para dizer e dizer isso de uma forma trágica não é a mesma coisa que ter alguma coisa para dizer.

132.
O poema é algo criado pelo poeta.

133.
A ordem estética inclui todas as outras ordens, mas não está limitada a elas.

134.
A religião depende da fé. Mas a estética é independente da fé. A posição relativa das duas pode inverter-se. É possível que uma pessoa aceite que a estética seja superior à religião. O seu estado actual resulta da dificuldade em estabelecer isto somente numa mente individualmente.

135.
La vie est plus belle que les idées. (a vida é mais bela que as ideias dela).

136.
Talvez haja um grau de perceção de que aquilo que é real e imaginado seja o mesmo: um estado de observação clarividente, acessível ou possivelmente acessível ao poeta ou, melhor, ao poeta mais atento.

137.
No fim o que vale é a realidade.

138.
O realismo é uma corrupção da realidade.

139.
Talvez valha mais enfurecer os filósofos do que estar de acordo com eles.

140.
O mundo é a única coisa em que podemos pensar.

141.
Toda a história é história moderna.

142.
A poesia é a soma dos seus atributos.

143.
Não penso que devamos insistir que o poeta é uma pessoa normal ou, já gora, que alguém o seja.

144.
Esta criatura feliz – foi ela quem inventou os Deuses. Foi ela quem pôs na sua boca as únicas palavras que chegou a pronunciar.

145.
A poesia é uma forma de eliminar a pobreza, a mudança, o mal e a morte. É um aperfeiçoamento, uma satisfação na irremediável pobreza da vida.

146.
A poesia é a arte do estudioso.

147.
O que se vê acaba por não se ver. O contrário é, ou parece ser, impossível.

148.
Estudar e entender o mundo fictício é a função do poeta.

149.
Quando se é jovem, tudo é físico; quando se é velho, tudo é psíquico.

150.
Eremita da poesia.

151.
O que está correto: se respeito os meus antepassados acabo por respeitar-me a mim próprio ou se me respeito a mim próprio acabo por respeitar os meus antepassados.

152.
Meine Seele muss Prachtung haben. (A minha alma deve ser bela)

153.
A coisa mais bonita (a única bonita) (a beleza é uma inadequada e temporária improvisação) no mundo é, claro, o mundo em si. Isto não é só lógico como categórico.

154.
Eu acredito na imagem.

155.
A língua é um olho.

156.
Deus é um símbolo para algo que pode tem outras formas como, por exemplo, a forma da alta poesia.

157.
As satisfações da natureza.

158.
Chegará o tempo em que poemas como o Paraíso parecerão artifícios muito tristes.

159.
Ser poeta é ter uma vida intensa.

160.
A grande conquista é a conquista da realidade. Não para apresentar a vida, por momentos, como tem sido feito.

161.
O poema é um faisão.

162.
Como é que o espírito humano sobreviveu à incrível literatura com a qual teve de se confrontar?

163.
A cúpula dourada das coisas é o espírito aperfeiçoado.

164.
A realidade é um vazio.

165.
Todos os homens são assassinos.

166.
A poesia é metáfora.

167.
A palavra deve ser a coisa que representa, caso contrário é um símbolo. É uma questão de identidade.

168.
Quando a mente é como uma sala onde os pensamentos parecem uma voz a falar, a voz é sempre de outra pessoa.

169.
Na poesia dramática a imaginação responde a uma realidade mais intensa. Graus ou planos da realidade.

170.
É necessário propor um enigma à mente. A mente arranja sempre uma solução.

171.
Todo o poeta deve ser um pouco rural.

172.
Aristóteles é um esqueleto.

173.
O grande poema é o corpo.

174.
O propósito da poesia é contribuir para a felicidade do homem.

175.
Existe uma literatura básica da qual a poesia é uma parte essencial.

176.
Como as coisas se parecem agora é sempre uma questão de sensibilidade.

177.
O homem é um eterno principiante.

178.
Para se ter alguma originalidade é preciso ter a coragem de se ser amador.

179.
A vida é a eliminação do que está morto.

 

180.
A principal dificuldade em qualquer arte é o problema da normalidade.

181.
O poeta é o sacerdote do invisível.

182.
A sociedade é um mar.

183.
A metáfora cria uma nova realidade com a qual o original parece irreal.

184.
A transição entre fazer com que se acredite em algo para fazer com que os outros também acreditem é o princípio, ou o fim, da poesia em cada um.

185.
As aquisições da poesia são fortuitas: trouvailles. (daí a sua desordem.)

186.
O exibicionismo é uma aquisição não é uma inerência.

187.
O romantismo está para a poesia como o decorativo está para a pintura.

188.
O grande poema desprende-se da (uma) realidade.

189.
O olho vê menos do que a língua diz. A língua diz menos do que a mente pensa.

190.
A realidade é o motivo.

191.
Ou entramos com ousadia no interior do homem ou não entramos.

192.
Ou uma poesia viva que lida com tudo ou então nada.

193.
Tocar com imaginação a realidade.

194.
O Mundo Reduzido a Uma Coisa.

195.
A genealogia é a ciência que corrige os erros dos outros genealogistas.

196.
O poeta não deve adaptar a sua experiência à do filósofo.

197.
É a forma o que se torna obsoleto.

198.
A descrição é um elemento, como o ar e a água.

199.
A leitura de um poema devia ser uma experiência. Tal como a sua escrita.

200.
Um poema é um café. (Restauração.)

201.
Os poetas adquirem humanidade.

202.
O pensamento tende a acumular nas pesquisas.

203.
A razão é uma parte da natureza e é controlada por ela.

204.
A vida não é pessoas e cenário, mas pensamento e sentimento.

205.
No mundo das palavras, a imaginação é uma das forças da natureza.

206.
A vida não se livra das suas formas.

207.
O poeta acaba reduzido a palavras como a natureza em ramos secos.

208.
As palavras são o único harmónio.

209.
Trazer à tona a música dos sons excêntricos das palavras não é diferente, em princípio, de trazer à tona a sua forma e excentricidades (Cummings): a linguagem como material da poesia não é mero meio ou instrumento.

210.
Temos exagerado da vida. Um diário da vida é raramente um diário de felicidade.

211.
Desde que o homem criou o mundo, o inevitável deus é um mendigo.

212.
Às vezes a poesia coroa a busca da felicidade. Ela é por si mesma uma busca de felicidade.

213.
Deus é o postulado do ego.

214.
A estética é a medida da civilização: não a única, mas a medida.

215.
A poesia deve resistir à inteligência com algum sucesso.

216.
O romântico existe tanto no preciso como no impreciso.

217.
A literatura não está baseada na vida, mas em pressupostos sobre a vida, das quais ela é um deles.

218.
A vida é um compêndio de proposições sobre a vida.

219.
Uma mudança de estilo é uma mudança de tema.

220.
A poesia é a afirmação da relação entre o homem e o mundo.

221.
O sentimento ou a introspecção é aquilo que vivifica as palavras, não o contrário.

222.
O homem não pode viver a vida sem que tenha experiência da vida.

223.
Nas crianças não é a imitação que nos agrada, mas a nossa perceção disso. Na maioridade, o aspecto pejorativo da imitação revela-se nela mesmo. Para dar prazer uma imitação deve ter sido estudada como uma imitação e então agrada-nos enquanto arte.

224.
Tudo se realiza a si mesmo: preenche-se a si mesmo.

225.
A imaginação não é a única que mantém uma relação mútua com a realidade. Também a ciência e outras.

226.
O romantismo é a primeira fase da loucura (num sentido não pejorativo).

227.
A flor do real na sua plenitude, não a fruta californiana do ideal.

228.
No final, a estética é completamente esmagada e destruída pela incapacidade do observador que foi ele próprio esmagado perdendo toda a sensibilidade.

229.
O mundo é ele próprio. A vida é ela própria.

230.
Deus existe em mim ou então não existe em parte nenhuma (não existe).

231.
O mundo é uma força, não uma presença.

232.
Perder a fé equivale a crescimento.

233.
As pessoas ocupam o lugar dos pensamentos.

234.
A vida vivida baseada na opinião está mais próxima da vida do que a vida vivida sem opinião.

235.
O pensamento é a vida.

236.
Todo o mundo toma partido nas mudanças sociais se estas forem bastante profundas.

237.
A poesia não está limitada a um único efeito como, por exemplo, a realidade que se manifesta.

238.
A poesia é a busca do inexplicável.

239.
Os poemas constituem temas novos.

240.
A ignorância é uma das fontes de poesia.

241.
A poesia é um faisão a desaparecer entre os arbustos.

242.
Nós nunca chegamos lá intelectualmente. Mas emocionalmente chegamos constantemente (como na poesia, na felicidade, nas montanhas altas, nas vistas).

243.
A imaginação consome e esgota alguns elementos da realidade.

244.
O poeta é um deus ou O jovem poeta é um deus. O velho poeta é um vagabundo.

245.
Se a mente é a mais terrível força da natureza, também será a única força que nos defende do terror. (ou)

246.
A mente é a mais terrível força no mundo sobretudo por ser a única força que nos defende dela própria. O mundo moderno baseia neste pensamento.

247.
O poeta representa a mente no acto de nos defender contra ela mesmo.

248.
Pergunta: a última satisfação do poema será a intelectual.

249.
Ninguém é herói para quem o conhece.

250.
Sobre o comportamento do poeta:
1. O prestígio do poeta é parte do prestígio da poesia.
2. O prestígio da poesia é essencial para o prestígio do poeta.

251.
O mundo está à mercê da mente mais forte, seja ela a força da sanidade ou insanidade, astúcia ou da boa vontade.

252.
Cada poema é um poema com um poema: o poema da ideia dentro do poema das palavras.

253.
O ponto de vista poético sobre a vida é mais amplo do que qualquer poema (algo muito mais amplo que qualquer poem); reconhecer isto é o princípio do reconhecimento do espírito poético.

254.
Ao morrer alguém o mundo regressa à ignorância.

255.
A poesia é a alegria (gozo) da linguagem.

256.
As palavras é tudo o que existe no mundo.

257.
Só um povo nobre concebe um Deus nobre.

258.
Se a resposta é frívola, a pergunta também o será.

259.
A menos que a vida seja interessante, não resta mais nada (ou, a menos que a vida se torne interessante).

260.

O interesse da vida sente-se participando e fazendo parte, não é pela observação nem pelo pensamento.

261.
Eventualmente um mundo imaginário não terá qualquer interesse.

262.
Chegar ao fim dos factos não é mesmo que chegar ao princípio da imaginação, mas chegar ao fim de ambos.

263.
Estar sentado no jardim e ouvir os gafanhotos; estar sentado no jardim e ouvir sinos do passado ou um no presente e outro no passado?

264.
O que se entende por interessante? É uma forma de gosto?

265.
Não se pode perder tempo em ser-se moderno quando há tantas coisas mais importantes para se ser.

266.
O homem que faz perguntas procura unicamente chegar a um ponto em que não seja necessário fazer mais perguntas.

267.
Não tenho vida a não ser na poesia. Não há dúvidas de que isto seria verdadeiro se dedicasse toda a minha vida à poesia.

268.
Quanto mais intenso é o sentimento daquilo de que se gosta mais vontade se tem de se ser o que isso é.

269.
A mente não está à altura das exigências da oratória, poesia etc.

270.
Há uma natureza que absorve a confusão das metáforas.

271.
O mundo do poeta depende do mundo que haja contemplado.

272.
A poesia é um estado de saúde.

273.
A poesia é grande somente quando explora grandes ideias ou, o que é a mesma coisa, grandes sentimentos.

274.
A imaginação aplicada ao mundo inteiro é insípida em comparação com a imaginação aplicada a um detalhe.

275.
É mais fácil copiar do que pensar, daí a moda. Ademais, uma comunidade de pessoas originais não é uma comunidade.

276.
Deve haver alguma asa na qual se possa voar.

277.
A poesia é a cura da mente.

278.
Os meios modernos de reprodução da vida, incluindo a câmara, repudiam a realidade. Engolimos o mal até sufocarmos.

279.
Nós gostamos do mundo porque sim.

280.
A mente que no céu criou a Terra e a que na Terra criou o céu eram, por acaso, a mesma.

281.
Nada podia ser mais inapropriado para a literatura americana do que a sua origem inglesa uma vez que os americanos não são nada britânicos em sensibilidade.

282.
A poesia é a resposta para a necessidade diária de atinar com o mundo.

283.
O poema devia estimular a consciência de viver e de se estar vivo.

284.
A realidade é o verdadeiro centro do espírito.

285.
O poema não precisa de ter um significado tal como a maioria das coisas na natureza muitas vezes não tem.

286.
A novidade (não a inovação) talvez seja o maior valor individual da poesia. Mesmo no pior dos sentidos da novidade a poesia nova tem valor.

287.
Não há nada no mundo superior à realidade. Neste caso temos de aceitar a própria realidade como o único génio.

288.
O homem é a imaginação ou melhor a imaginação é o homem.

289.
“tornar subtil a experiência” = apreender a complexidade do mundo, perceber o intrincado da aparência.

290.
A poesia é muitas vezes a revelação dos elementos da aparência.

291.
A literatura é o anormal criando uma ilusão normal.

292.
A poesia é a renovação da experiência. A originalidade é uma fuga da repetição.

293.
A teoria da poesia é a vida da poesia. O Cristianismo é uma cultura exausta.

294.
Alimenta os meus cordeiros (com o pão da vida…) A glória de deus é a glória do mundo… Encontrar o espiritual na realidade… Estar em sintonia com a realidade.

295.
A teoria da poesia é a teoria da vida.

296.
A realidade é o objeto visto no mais amplo sentido comum.

297.
A poesia constantemente exige uma nova relação.

298.
A realidade não é o que é. Consiste em múltiplas realidades de que pode ser feita.
299.
O que falta à realidade é um noeud (laço) vital com a vida.

300.
O francês e o inglês constituem uma só língua.

301.
A ignorância é o nosso principal ativo.

302.
Proposita:
1. Deus e a imaginação são a mesma coisa.
2. A coisa imaginada é quem a imagina.
A segunda significa que o imaginado e quem o imagina são o mesmo. Pontanto, suponho, quem imagina é Deus.

303.
A maior obra de ficção: a mitologia grega. A mitologia clássica, mais a grega que a latina.

304.
A poesia é (e devia ser,) para o poeta, uma fonte de prazer e satisfação, não uma fonte de prestígio.

305.
A falha essencial do surrealismo é inventar sem descobrir. Fazer uma ameijoa tocar acordeão é inventar, não descobrir. A observação do inconsciente, tão profunda quanto possível, deveria revelar coisas que não tínhamos consciência, não as coisas familiares que já conhecíamos com a ajuda da imaginação.

306.
A imaginação não acrescenta nada à realidade.

307.
A grande fonte da poesia não é a poesia mas a prosa: realidade. Contudo, é preciso que o poeta perceba a poesia na realidade.

308.
Nos momentos em que o terror perante a vida devia ser maior (quando se é jovem ou idoso), é quando somos insensíveis ao mesmo. Isto sucede nos momentos mais profundamente poéticos. Esta é a origem do sentimentalismo, o que é um falhanço do sentimento.

309.
A poesia é realidade e pensamento ou sentimento.

310.
Se alguém acredita na poesia então as questões de princípio tornam-se vitais. Em qualquer caso, se nada existe senão realidade e arte, a mera afirmação deste facto encerra a importância da arte.

311.
A dicotomia não é entre realistas e artistas. Deve haver poucos realistas puros e poucos artistas puros. Somos híbridos absorvidos pela literatura híbrida.

312.
A alegria em poesia é uma característica preciosa, mas deve ser uma característica da dicção.

313.
A realidade é um cliché
que escapamos através da metáfora
é somente au pays de la métaphore
qu’on est poèt
.

314.
Os graus da metáfora:
o objecto absoluto ligeiramente alterado
é uma metáfora do objecto.

315.
Alguns objectos são menos susceptíveis à metáfora do que outros. O mundo inteiro é menos susceptível à metáfora do que uma chávena de chã.

316.
Não existe a metáfora da metáfora. Não se avança através de metáforas. Portanto, a realidade é o elemento indispensável da cada metáfora. Quando digo que aquele homem é um deus é fácil ver que se digo também que deus é outra coisa, deus torna-se realidade.

317.
A poesia busca a relação dos homens com os factos.

318.
A imaginação é o poder do homem sobre a natureza. Questão

319.
A imaginação é o único génio. Questão

320.
Como modificar objectos reais sem a ajuda da metáfora. Pelo sentimento, pelo estilo, etc.

321.
A poesia é a manifestação da relação que o homem cria entre si e a realidade.

322.
O impulso da mente dirige-se todo à abstracção.

323.
A imaginação do cego não pode ser um prolongamento de um exterior que nunca viu. (Berkeley)

324.
O efeito da imaginação nos trabalhos dos artistas é um assunto diferente daquele que me interessa. Em arte o efeito é a produção de qualidades: como a força (Pater, Michael Angelo) e o seu valor depende do valor dessas qualidades. Na vida isso produz coisas e o seu valor depende do valor das coisas como, por exemplo, o valor das obras de arte.

325.
I – Existem dois tipos de poetas, dos quais podemos ver Homero como a ilustração da narrativa-tipo e Platão, independentemente da consideração de não ter escrito em verso, como a ilustração da reflexão-tipo.

326.
II – O poema é como um objecto natural.

versões de PML

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