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Sobre a morte por Nicolás Guillén

Sobre a morte por Nicolás Guillén

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A morte pode chamar-se César apunhalado e exangue,mas é também o amável faisão decorativo e degoladoque morreu para presidir à promissora alegria desta noite. Éo cão municipal babando a sua estricnina,que agoniza na rua rodeado de rapazes. ÉSócrates rodeado de discípulos. ÉShelley exânime deitado sobre a areiamolhada pela última onda fugitiva. Éo mamute arquimilenárioimóvel e exposto em sua vitrine siberiana de gelo imemorial.Comemos morte todos os diase a morte rói-nos todas as noites.Os poetas, os filósofosgritam: “Morte, morte” – a deles.O boi desamparadoque se esvai em torrentes de sanguecom o braço do magarefe revolvendo-lhe o peito, e uma dormais forte que todas as anginas,não é morte também?Talvez a rês nada saiba, masconheces tu a crispação de raiva e de impotênciaque há numa ementa?Tiremos a limpo as nossas contas.Repartamos a morte em toda a sua extensão:do condor à abelha,do veado perseguido e assassinadoà criança afogada num tanque,do poeta e do filósofoque gritam: “Morte, morte”(à deles)aos que morrem sem sabero que lhes acontece, o que se passa,o que vai suceder-lhes, e nem perguntamse isso é morte, realmente,se é assim que se morre.

por Nicolás Guillén in Antologia poética, selecção, tradução e notas de Albano Martins, Campo das Letras, novembro de 2002, página 81

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