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O adeus que nunca foi dito

O adeus que nunca foi dito

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CATORZE de fevereiro de 1976. O dia mal começava e já havia uma actividade intensa dentro de casa. Eram os preparativos para a viagem inesquecível que ia fazer com sua família. De vez em quando ouvia o mocho e a coruja entoando os seus cantares odiosos por entre os montes cobertos de orvalho.

Maria tinha apenas catorze anos, feitos há pouco tempo, e ia assistir ao casamento de sua prima paterna. Estavam à algumas horas levantados e a balbúrdia era visível pela casa.

Acordaram bem cedinho para se arranjarem para a boda que ficava a vários quilómetros de casa. Seu pai trajava um fato novo aos quadrados, bem chique, sapato engraxado e chapéu na cabeça. Ainda se lembra como se fosse hoje. Sua mãe tinha um vestido novo de cor verde com umas florinhas bem salpicadas pelo tecido e umas lindas e elegantes botas pretas de cano alto.

Estava na hora! era inverno, mas nem por isso o frio se fazia sentir. O sol espreitava por entre as clareiras do céu cinzento logo pela manhã bem cedo e o veículo estava pronto para a viagem.

Partiram dali no dia catorze do segundo mês do ano, para irem ao matrimónio; era o seu pai, sua mãe, sua irmã mais velha, seu irmão mais novo, sua sobrinha com apenas dois anos e pouco de idade e ela.

Recorda-se de como usava aquele casaco comprido de cor verde que lhe tinha sido oferecido pelo menino Jesus no dia de Natal.

Seus pais ainda eram jovens, sua mãe contava com apenas quarenta e cinco anos de idade e seu irmão tinha apenas cerca de nove anos.

Era uma viagem longa e cheia de curvas, as curvas do chouriço como lhe chamavam; e era uma vez deitados para a direita e outra vez deitados para a esquerda e assim sucessivamente numa carrinha Austin de cor cinzento. Era uma risada todo o caminho a ver qual era o que se deitava com mais força por cima do outro.

O seu pai era o condutor do veíclo, o passageiro da frente era a sua mãe e ao meio, em cima do motor, ia o seu irmão que não largava aquele lugar demaneira nenhuma. No banco de trás ia a sua irmã que tinha vinte e três anos de idade, a sua sobrinha e ela.

A cerimónia de igreja começava cedo e ainda era preciso cumprimentar toda a família que já não viam há muito tempo; foram beijinhos, abraços e passoubens sem parar. Até que enfim, lá entraram para a cerimónia e deu‑se o casamento tão esperado. A noiva, que era sua prima direita, estava muito bonita. Ficou contente quando o senhor padre finalizou o casamento e os despediu com a bênção apostólica. Finalmente podiam ir para o restaurante almoçar, é que a fome já apertava e ainda tinham que conduzir durante um bom bocado.

Havia alegria. E o dia compunha-se de nuvens corredeiras e raios de sol que mais se comparavam a únicornios que aqueciam  aquele momento, o vento mal bulia e o céu prolongava-se para além do firmamento.

Lá chegaram e outra vez mais umas primas ou uns primos para cumprimentar (é que a família era grande), finalmente entraram e se sentaram para almoçar ou lanchar, já que para ela as horas eram avançadas.

Foi um tempo muito bonito, conheceu alguns primos e divertiu-se que se fartou e até arranjou um namorado.

Entretanto chegou a hora de regresso a casa. Havia algumas horas para andar. Toca a despedir de toda a família novamente, mas especialmente dos noivos e desejar‑lhes muitas felicidades. Foi abraços para dar e receber e já se fazia hora de andar. Lá entraram na carrinha Austin novamente de rumo a casa. O seu pai, a sua mãe, a sua irmã, o seu irmão, a sua sobrinha e ela. Já se tinham despedido de todos incluindo de seu irmão mais velho, de sua esposa e suas duas filhas que viviam também naquele lugar. O seu pai fez‑se à estrada novamente, de regresso a casa. Em outro carro vinha um casal que os acompanhava no caminho até quase perto de casa.

Vinham felizes e satisfeitos pela boda da sua prima e pelo reencontro de tanta família quando o inesperado aconteceu.

Seu pai que era o condutor saiu da auto-estrada para dar entrada na estrada do chouriço, como lhe chamavam, parou no cruzamento, olhou e ficou quieto. De repente, um indivíduo que vinha na auto-estrada em sentido contrário, resolveu fazer uma ultrapassagem em cima do cruzamento e tudo aconteceu: “disseram que o homem vinha embriagado, um dos seus trabalhadores que vinha em cima da carroçaria da fragoneta, escreveu uma carta anónima”.

O inesperado tinha acontecido e ela jamais pensou neste acidente, nesta despedida demasiado pronta; Maria tinha apenas catorze anos de idade e o seu irmão nove anos e os seus pais eram jovens.

A sua irmã foi para o hospital muito mal, a sua sobrinha também foi para o hospital muito mal, o seu pai estava muito mal e foi também para o hospital.

Todos foram para um lugar diferente porque a gravidade era imensa. Uns foram para o Porto, outros para Aveiro, Albergaria-a-velha e ainda para Águeda. A sua mãe e o seu irmãozito… eles… eles! partiram, partiram, dali mesmo, sem se despedirem.

Ela quase que ficava ali sem que tivessem dado por ela dentro da carrinha Austin. Estava enrolada nas chapas metálicas desfeitas e atiradas a vários metros de distância pelo forte embate.

Era uma tragédia!

Um momento inesquecível se os sentidos não tivessem desligado naquele momento que ninguém quer lembrar nem nunca está preparado para tal coisa. Foi então que o casal que os acompanhava no seu veículo, se lembrou que faltava mais alguém, mas nesse instante já a equipa de socorro tinha reparado que dentro dos destroços da carrinha Austin havia uma cabeça com cabelos compridos ao pendurão e gritaram: “ainda há mais um…”.

Lá a tiraram do meio de todas aquelas chapas amassadas, (nada de que ela se recorde mas foi contado por quem assistiu), dizem que deu todos dados da família. De onde vinham e para onde iam, o nome do seu pai, da sua mãe, da sua irmã, do seu irmãozito, da sua sobrinha e o seu, e ainda lhe perguntaram se tinha mais algum familiar para avisar. Foi quando chamaram o seu irmão mais velho. Ela não se recorda de nada mas dizem que foi assim. Seria o não querer trazer à memória aquilo que não dava esperança.

O seu pai estava muito mal e procurava pela sua mãe constantemente (nunca chegou a saber o que aconteceu) e três dias depois também ele partiu.

Foi o adeus, o adeus que ela nunca disse a nenhum deles.

Foi assim que a deixaram, foi a despedida inesperada, dolorosa que até hoje ela pode experimentar.

Iria ser preciso muito tempo para sarar esta perda, se é que algum dia essa ferida poderá cicatrizar. A vida é um sopro que nasce pela manhã, floresce ao meio dia e pode murchar antes do anoitecer. Essa vida estava no limite das suas palavras, dos seus sentimentos ou mesmo dos seus gestos.

Maria ficou com seus irmãos, cresceu num oceano de perguntas sem respostas. Nunca pode entender o porquê dessa ausência forçada. Ela encontrou força na palavra de Deus, nas suas águas tranquilas que lhe davam alento e refrigério.

O tempo é como um rio na sua própria jornada. Deus é quem decide a sua corrente e Ele daria refúgio na travessia da despedida não formalizada.

Por Ilda Pinto Almeida

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