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“Clube Mediterrâneo: doze fotogramas e uma devoração” no AltCom

“Clube Mediterrâneo: doze fotogramas e uma devoração” no AltCom

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CLUBE Mediterrâneo: doze fotogramas e uma devoração”, livro criado a partir de um poema de João Pedro Mésseder com ilustração de Ana Biscaia e tipografia e design de Joana Monteiro, é o representante de Portugal na quinta edição do Festival de Banda Desenhada AltCom [http://altcomfestival.se/], que decorre em Malmö, na Suécia, entre 23 e 26 de Agosto de 2018. Com a cenógrafa Filipa Malva, as duas artistas preparam uma exposição que apresenta o livro como um cenário. Depois de Malmö, a instalação será mostrada em várias cidades portuguesas, continuando a chamar a atenção para a desumanidade da reacção da Europa perante os apelos de quem aqui procura refúgio.

“Clube Mediterrâneo” foi editado em 2017, por duas pequenas e recentes editoras de Coimbra – a Editora dos Tipos [http://www.clubedostipos.com/] e a Edições Xerefé [https://www.facebook.com/xerefe/]. Em 12 “fotogramas”, o poema de Mésseder fala-nos do drama daqueles que, fugindo à guerra e à pobreza, tentam chegar à Europa pelo Mediterrâneo, mar transformado em cemitério de pessoas refugiadas. Fala-nos dos muros, dos arames farpados e das portas fechadas que a Europa lhes tem oferecido e da forma como isso a está a devorar, nos está a devorar.

Para além das palavras de Mésseder, as ilustrações de Ana Biscaia (autora, com o mesmo escritor, de “Que luz estarias a ler?”, sobre a situação na Palestina), o design cuidado de Joana Monteiro (responsável pelo Clube dos Tipos) e a composição e impressão em caracteres de madeira e chumbo (na Tipografia Damasceno, em Coimbra), fazem deste livro um objecto precioso e singular, cuja edição original foi apoiada pela 19.ª Semana Cultural da Universidade de Coimbra.

Em resposta ao convite que lhes foi feito pela organização do Festival AltCom, Ana Biscaia e Joana Monteiro chamaram Filipa Malva e propõem uma exposição na qual o livro surge “cenografado, portátil e passível de ser transformado em espaço de trabalho (para realização de oficinas de ilustração e tipografia, com a comunidade, baseadas no livro)”. A instalação assenta numa “tenda de grande formato (aludindo aos campos de refugiados e às frágeis estruturas onde dormem as pessoas, idosos, crianças, famílias inteiras)”, onde estarão expostas as reproduções das ilustrações do livro num formato não convencional, bem como outros objectos ligados à “ideia de partida”. Está igualmente prevista – adiantam as artistas – a “concepção de um kit de fotogramas e de materiais diversos (notícias de jornais, conjuntos de imagens, entre outros), que servirá para estruturar o programa de oficinas de ilustração e tipografia, baseadas no livro”. Está ainda em estudo a possibilidade de as duas autoras portuguesas (Ana Biscaia e Joana Monteiro) realizarem algumas sessões de trabalho em escolas de Malmö, durante a sua estadia na cidade.

A montagem da exposição conta com o apoio da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB). Depois da participação no festival da Suécia (país que recebeu milhares de pessoas refugiadas de vários países do Médio Oriente e de Africa), está prevista a circulação da exposição por algumas das principais cidades portuguesas, ao longo de um calendário a anunciar em breve.

O AltCom

O AltCom é um festival de banda desenhada que tem lugar em Malmö, organizado pela Tusen Serier [http://www.tusenserier.com/] em cooperação com C’est bon Kultur [http://cbkcomics.com/] (duas associações de banda desenhada sediadas naquela cidade sueca). Nesta sua quinta edição, o festival adopta como tema “Como sobreviver a uma ditadura”, título da exposição colectiva em que também participará, com uma obra inédita, a ilustradora Ana Biscaia.

A ilustração portuguesa tem tido uma presença regular nesta iniciativa, que assume a promoção do diálogo e do trabalho em rede entre artistas internacionais como um dos seus principais objectivos: em 2010 com Marcos Farrajota, e em 2012 e em 2014 com representações do colectivo “Chili com Carne”. Ana Biscaia integrou a equipa que participou no Festival de 2012, então sob o lema “No borders” (“Sem fronteiras”).

Ana Biscaia e João Pedro Mésseder

O escritor e a ilustradora de “Clube Mediterrâneo” gostam de e estão habituados a trabalhar juntos. “O Livro dos Meses” (2012) e “Lembro-me” (2014) – ambos editados pela Lápis de Memórias; “Que luz estarias a ler?” (2014) e “Poemas do Conta-Gotas” (2015) – ambos editados pela Xerefé; ou ainda “Versos que riem” (Calendário das Letras, 2016) são apenas alguns dos trabalhos que realizaram em conjunto.

Designer gráfica e ilustradora, Ana Biscaia (1978) estudou ilustração em Estocolmo, na Konstfack University College of Arts, Crafts and Design. Com exposições realizadas em vários pontos do Mundo, recebeu, entre outras distinções, o Prémio Nacional de Ilustração em 2012, atribuído pela DGLAB, com a obra “A cadeira que queria ser sofá” (texto de Clovis Levi). É fundadora das Edições Xerefé.

João Pedro Mésseder (1957) é professor do Ensino Superior. Autor de várias obras de ficção e poesia para crianças e jovens, foi diversas vezes distinguido pelo seu trabalho, em Portugal e no estrangeiro: Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho de Poesia, em 1999 (com o livro “Fissura”); selecção para a lista White Ravens 2003 da Biblioteca Internacional da Juventude de Munique (com o álbum Timor Lorosa’e: A Ilha do Sol Nascente, ilustrado por André Letria); nomeação para as Listas de Honra do IBBY (International Board on Books for Young People), em 2000 e 2006 (“Versos com Reversos” e P”alavra que Voa”); Prémio Bissaya Barreto de Literatura para a Infância 2014 (com “Pequeno Livro das Coisas”); entre outros.

Joana Monteiro e Filipa Malva

Joana Monteiro é designer gráfica, faz direcção de arte e assume a sua “paixão pela tipografia”. Licenciou-se em Pintura e Design de Comunicação (ARCA, Coimbra), fez o mestrado em Design Gráfico (University of the Arts London) e estudou na Royal College of Art, Londres, onde experimentou vídeo e tipografia tradicional. Colaborou com o atelier FBA. em Coimbra durante 5 anos. É freelancer desde 2007 e tem trabalhado sobretudo com clientes da área da cultura. Ganhou o prémio AIGA Justified em 2013 e o prémio Sebastião Rodrigues, do Ano do Design Português, em 2014. É co-fundadora do Clube dos Tipos e fundadora da Editora dos Tipos, chancela através da qual publicou em 2016 o “Manual Prático do Tipógrafo”, antes deste “Clube Mediterrâneo”.

Filipa Malva é cenógrafa e arquitecta, doutorada em Estudos Artísticos pela Universidade de Coimbra e Mestre em Espaço de Performance pela Universidade de Kent. Tem desenvolvido trabalho regular como cenógrafa, figurinista, artista cénica e desenhadora. Nos últimos quatro anos tem sido responsável pela cenografia e figurinos d’ O Teatrão, da Casa da Esquina, da Cooperativa Bonifrates, dos Macadame, dos Cornalusa e do GEFAC, entre outros. É membro fundador da Associação Portuguesa de Cenografia e bolseira de Pós-Doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

Um mar que já não une

Um livro sobre os refugiados que diariamente arriscam a vida nas águas do Mediterrâneo representará Portugal no festival AltCom, na Suécia

Por Sara Figueiredo Costa

Durante meses, os serviços noticiosos televisivos focaram a sua atenção nos barcos que cruzavam o Mediterrâneo e nas centenas de refugiados que, diariamente, tentavam desembarcar na Europa. Lampedusa, Lesbos, Katsikas, nomes que podiam ser destaque em folhetos de viagem turísticos tornaram-se geografias conhecidas de muita gente pelos piores motivos. Depois, as notícias seguiram o seu rumo, a actualidade decidiu-se por outros assuntos, os refugiados passaram a ser mera nota de rodapé. No Mediterrâneo, a tragédia prosseguiu, indiferente às manchetes, e todos os dias são centenas, por vezes milhares, aqueles que arriscam a vida no mar para fugirem à guerra nos seus países, da Síria à Eritreia.

Há um ano, João Pedro Mésseder e Ana Biscaia, escritor e ilustradora, juntaram-se a Joana Monteiro, designer, para a criação de um livro que nada tem de noticioso. Não há dados, estatísticas ou quadros infográficos, mas Clube Mediterrâneo. Doze fotogramas e uma devoração (Editora dos Tipos/Xerefé) é um objecto capaz de retratar o drama diário dos refugiados que procuram chegar à Europa com uma força que não está na objectividade, mas na capacidade de representar o desamparo e de convocar os leitores para a imprescindível empatia – aquela que nos põe no lugar dos outros e nos faz ver-nos numa situação insustentável. Ana Biscaia contou ao Parágrafo como começou o projecto: «Este livro nasceu como uma espécie de vai e vem. Um dia o Mésseder enviou-me um mail com o texto Clube Mediterrâneo. Eu li-o e partilhei-o com a Joana Monteiro, com quem queria trabalhar há já algum tempo (juntando ilustração e tipografia). Candidatámos o projecto do livro à Semana Cultural da Universidade de Coimbra e em 2017 recebemos apoio para o fazer.»

Os versos de João Pedro Mésseder respondem à actualidade com o peso da intemporalidade: «Cruzam desertos, mares, florestas, não poucas vezes a vida, de um lado ao outro, a vida.» As imagens criadas por Ana Biscaia centram a leitura no presente, porque reconhecemos em certos elementos pictóricos as mesmas imagens que fomos vendo nos ecrãs. Texto e imagem, dispostos de modo a permitirem uma leitura simultânea, confirmam que esta é uma história com tempo e lugar – ainda que lhe encontremos tantos ecos de todos os tempos e de outros lugares – e que, de algum modo, não deixamos de fazer parte dela à força de não a querermos conhecer.

No mês que vem, entre os dias 23 e 26, Clube Mediterrâneo será o representante de Portugal na quinta edição do Festival de Banda Desenhada AltCom, que decorre em Malmö, na Suécia. Será uma oportunidade de divulgação, claro, mas sobretudo um momento para voltar a colocar os refugiados na ordem do dia. «O ano passado estive em Estocolmo e vi a cidade como nunca a tinha visto», diz Ana Biscaia. «Chegaram ali homens, mulheres e crianças refugiadas. Muitos. De repente o cenário da cidade transformou-se. Estocolmo, capital da Suécia, recebeu muita gente e isso transformou muito a paisagem humana. A 30 minutos de apanhar o avião para Portugal, escrevi ao Mattias [Elftorp], responsável pelo AltCom, e falei-lhe do livro Clube Mediterrâneo. Perguntei-lhe se seria possível fazer um projecto em Malmö com estas pessoas, no âmbito do Festival – uma amiga contou-me que em Malmö havia escolas só com crianças oriundas de países em guerra. Recebi a resposta rapidamente. Estavam criadas as condições (de vontade) para fazer isto na Suécia.»

Em Agosto, Clube Mediterrâneo transforma-se numa exposição que conta com o apoio da Direcção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, na qual o livro surge «cenografado, portátil e passível de ser transformado em espaço de trabalho, para realização de oficinas de ilustração e tipografia, com a comunidade, baseadas no livro», como se lia na nota de imprensa divulgada pelas editoras. A instalação assenta numa «tenda de grande formato (aludindo aos campos de refugiados e às frágeis estruturas onde dormem as pessoas, idosos, crianças, famílias inteiras), onde estarão expostas as reproduções das ilustrações do livro num formato não convencional, bem como outros objectos ligados à “ideia de partida”», lia-se na mesma nota. Em Malmö, muito longe das suas águas, o Mediterrâneo voltará a ser ponte.

Publicado in Parágrafo, #32, suplemento literário do Ponto Final, Macau, sexta-feira, 29 de Julho de 2018 – Director: Ricardo Pinto, Editora: Sara Figueiredo Costa

Clube Mediterrâneo – seis fotogramas e uma devoração 

Ver reportagem da Escola Superior de Educação de Coimbra de 15 de setembro de 2018, aqui: https://www.rtp.pt/play/p3726/esec-tv

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