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As cidades por Narcís Comadira

As cidades por Narcís Comadira

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Li algures que Morosini,
general embaixador
de Veneza, tencionou
ficar com as esculturas
que há no frontão do Pártenon.

Mandou erguer um andaime
para os escravos treparem;
no momento mais difícil,
alguma escora falhou.
Caíram homens e estátuas.

Morosini abandonou,
decepcionado, o projecto.
Ele queria-as inteiras.
Os bocados espalhados
serviram para erguer casas.

Muitos sábios meditaram
sobre o singular mistério
de poder criar beleza
usando um bloco de mármore.
Poucos, sobre o contrário:

tirar um silhar lascado
do torso de um deus antigo,
fazer da Vénus cascalho,
poder pisar a calçada
feita de homem sagrados…

Foi assim que as cidades nasceram:
construídas lentamente
com pedras que ontem foram
vidas humanas: amores,
sofrimentos que ninguém recorda.

in Resistir ao tempo antologia de poesia catalã (edição bilingue), organização e tradução do catalão de Àlex Tarradellas, Rita Custódio e Sion Serra Lopes, Assírio & Alvim, junho 2021, página 483

 

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