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Rui Azevedo Ribeiro: criador das Edições 50 Kg

Rui Azevedo Ribeiro: criador das Edições 50 Kg

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VIVE rodeado de letras, dispersas por todos os recantos do ateliê, na zona histórica do Porto, onde consome uma parte dos dias. Espalhados por estiradores ou contidos em garrafões, os caracteres de chumbo são a matéria-prima de que Rui Azevedo Ribeiro se serve para criar livros 100% autorais numa improvisada tipografia móvel.

Criador das Edições 50 Kg, uma das duas únicas editoras integralmente artesanais ainda existentes em Portugal, este poeta-tipógrafo-professor desempregado assume-se como “um amante da dimensão física dos livros, inexistente no digital”. Os rudimentos tipográficos aprendeu-os na Internet, sorvendo o máximo de elementos de uma arte hoje quase extinta, mas nem por isso menos essencial.

Com as escassas poupanças disponíveis, foi comprando ao longo dos tempos os acessórios da tipografia móvel (componedor, galé, rama, prelo e caixa-tipo). Para completar esta autêntica gama de aparelhos “lo-fi”, falta-lhe apenas uma guilhotina mais potente. Mas não, como se apressa a dizer, para guilhotinar edições comercialmente duvidosas, como um poderoso grupo editorial fez há um par de anos. “Dá-me prazer ir em contraciclo”, admite.

Ainda hoje, Rui Azevedo Ribeiro faz incursões periódicas por tipografias em vias de serem desmanteladas, comprando baldes de palavras, nas quais se apercebe da nostalgia que os funcionários sentem por trocar este ofício fisicamente exigente pelo mundo asséptico dos computadores. “O próprio odor é viciante”, deixa escapar.

Do primeiro livro publicado pela 50 Kg, uma edição que reúne poemas de sua autoria, quase evita falar, tal o primarismo apresentado. “Está repleto de gralhas”, lamenta.

Com o aprimoramento das técnicas, os livros seguintes – Rendimento mínimo, que escreveu a meias com A. Dasilva O., e Palinopsia, de Pedro S. Martins -, a microeditora tem atraído atenções, mesmo por parte de poetas com vasta obra publicada, fascinados pela forte carga autoral dos seus títulos. A tal ponto que as propostas de publicação chegam de todo o lado. Até do Brasil. “É por isso que evito ter Facebook”, graceja, embora confesse que nada tem contra o digital, “bem pelo contrário”.

Por muita simpatia que este projecto possa colher no futuro, há características de que o seu responsável-mor não abre mão, como a tiragem, “que jamais irá além dos 300 exemplares”.

A aguardar disponibilidade financeira para avançar encontra–se ainda Ponte Levadiça, um jornal dedicado à poesia, crítica e tradução que espera começar a publicar muito em breve.

As quatro horas que precisa para compor uma única página de um livro parecem uma eternidade numa era de velocidade vertiginosa, mas, para o poeta, nada substitui o prazer de ver o resultado final. “É insubstituível”, diz.

Com as editoras tradicionais cada vez menos voltadas para a poesia, em nome da sustentabilidade económica, o exemplo da 50 Kg, mais do que um fenómeno episódico, pode virar uma tendência. Nada que perturbe Azevedo Ribeiro, para quem essa “marginalidade auto-imposta pela maioria das editoras até traz vantagens, como “a maior união entre os poetas” e “um regresso à essência”.

O gosto que nutre pela poesia não pertence apenas à ordem dos afectos: “É o género em que encontro menos certezas. Coloca-me questões e ajuda-me a pensar”.

Por Sérgio Almeida publicado in http://jn.sapo.pt/blogs/babel/

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