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Retrato de Sevilha

Retrato de Sevilha

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HÁ um magnífico poema de e.e. cummings que começa com um indelével amanhecer e lembra-me Sevilha. Não porque tenha assistido a um especial e ardente amanhecer em Sevilha (que também os há, seguramente), mas porque a cidade representada no poema “desperta / com uma canção sobre a / boca tendo a morte nos olhos” e nesse momento, nesse exacto momento do poema, aparece-me sempre o retrato de Sevilha, da Sevilha representada por mim, musical e mortífera, da Sevilha que vi apenas três vezes na vida, mas que foram suficientes para que eu nunca mais a quisesse esquecer.

Sevilha é isto: uma mistura de ternura e negrume, crueldade e alegria, milagres, cavalos e ruelas, um sol que teima em fundir paradoxos, libertando as tonalidades quentes da quimera por entre a exuberância das fontes e dos jardins. Confunde-se com a definição que eu tenho do acto de leitura, porque ler, para mim, também é isto: esperar que me rebentem a voz da experiência e a causa empírica com um instinto meramente paisagístico, para que depois possa ver emergir um cenário de grande amplitude poética, pelo dom que traz a colagem inequívoca da vertigem no vidro.

De cada vez que venho de Espanha, venho desfasado de mim mesmo. E não há, nem quero que haja, cura para isto. Venho com a visão incandescente. Com a sensação de que a vida é uma imensa avenida, um Paseo de Colón na hora de ponta da luz e do relevo, e não uma praça decrépita e triste, que em muitas das nossas cidades não passa de silêncio instituído e descuido singelo. Venho com a vitalidade de quem descobre no fundo do cabaré a sua paixão cabalística. Talvez porque as cidades espanholas acreditam muito na sua grandeza. E mais do que de história e monumentos, esplendem de crueldade e alegria, estão ébrias de presente, e ousam confundir para iluminar e iluminar para confundir.

Quando regresso ao Porto, lanço-lhe feitiços. Experimento a fantasia que deixei aberta à consideração da amante na mulher que amo profundamente. Procuro, sem paz, o poema que me traga a colagem inequívoca da vertigem no vidro. Alegro-me com os cheiros ocres do adultério e rasgo com o olhar desimpedido novas avenidas, praças e hemisférios. E tento ser, aqui, um pouco mais cruel e feliz também.

SOBRE O AUTOR: André Domingues (Porto, 1975). É tradutor, revisor, locutor e redactor de publicidade. Autor do livro de contos curtos “Dramas de Companhia” (Companhia das Ilhas, 2016) e de poesia “Tempestade das mãos” (Debout sur l’Oeuf, 208). Colabora com o Correio do Porto desde 2015.

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