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Pichoche e Keka, Sé, Porto

Pichoche e Keka, Sé, Porto

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A início, Keka parece sem grande disposição para falar. Pichoche brinca um pouco com a situação e, daí a pouco, o ambiente distende-se. Eventualmente, será Keka a suportar o grosso das despesas da conversa. “Pra quem não ia falar…”. O comentário é de Pichoche, em jeito de brincadeira.

No Centro Histórico do Porto – e, em especial, na Sé, onde Pichoche e Keka nasceram e vivem – é frequentemente assim. Um olhar desconfiado, alguma reserva inicial, palavras parcas a princípio, depressa substituídas por abertura e à-vontade, como se fôssemos velhos conhecidos. Segundo Keka, é isto, aliás, que distingue as pessoas do Porto: “Eu falo por mim. Pessoas que vieram de fora e disseram que somos um povo totalmente diferente. Por exemplo, vieram pessoas de Lisboa e disseram ‘Eu estou admirada e não estou habituada a tanta… amabilidade nas pessoas aqui do Porto’. Porque as pessoas eram simpáticas e tudo… Só diziam bem do Porto, das pessoas daqui… E então ali da nossa freguesia ainda mais dizem… Somos um espectáculo”.

A recorrência deste tipo de representação genérica do “povo do Porto” – e a igualmente recorrente impressão de que a realidade da vida de todos os dias é mais complexa do que aquilo que tal representação deixa perceber – levam-nos, quais desmancha-prazeres, a insistir na velha pergunta: “Mas essa maneira de ser e estar vigora em todas as situações? Ou é só para os de fora?”. Keka reitera a sua opinião: “Não, é em todas as situações. Nós ali, até umas com as outras, também nos ajudamos… Às vezes, prontos, há uma ou outra…, mas, de resto, nós damo-nos todas bem ali e ajudamo-nos umas às outras”. A haver diferença, talvez seja em relação ao passado. Keka explica: “Às vezes, há certas ocasiões, [em que fica a sensação de que as coisas] ‘tão a mudar… tem muita gente… é esta malta nova, que nasceu, que já nasceram depois de nós, da nossa geração, não é?, que já não têm aquele espírito de ajudarem-se uns aos outros, isso não… acho que não”. Pichoche tenta complementar a ideia com uma possível justificação para a mudança em curso: “É outros tempos. Naquelas alturas não havia as coisas que há agora, agora há computadores, há playstations, eles agora querem estar entretidos, não querem estar com essas coisas… Antigamente, era diferente. As pessoas viviam mais em conjunto, mais em comunidade, agora não. Agora comunicam uns com os outros através das internetes e dessas coisas…”.

O tom de Pichoche é de compreensão, mais do que de crítica. Não há reprovação nas suas palavras; elas limitam-se a constatar, de forma mais ou menos resignada, um facto com ares de irreversibilidade. Se tivéssemos de eleger um sentimento dominante nas palavras de Pichoche e de Keka, diríamos que elas são de nostalgia. A mágoa da impossibilidade de regresso a um espaço e um tempo perdidos, saudades de casa. A descrição que Keka faz da saída forçada dos seus pais e de alguns outros familiares da Sé reproduz, uma vez mais, o sentimento em causa: “O meu pai sempre viveu ali na Sé, nasceu e foi criado ali, casou, ficou ali e essas coisas, e agora, ao fim de setenta e tal anos, teve que sair dali porque fecharam o prédio, que era para fazer um hotel, hum? Há dois anos e meio. E acabou por ainda estar o prédio fechado, sem fazerem obras, e o meu pai teve de sair dali. Isso não foi justo, o meu pai até chorou, a minha mãe até ficou doente e – como é que eu hei-de dizer – acho que não tem lógica nenhuma estarem a fechar a… (…). Prá minha mãe, torna-se… que a minha mãe é uma pessoa que anda poucochinho, não é?, mas, pelo menos ali, [na Sé,] vinha sempre connosco conversar… Ali, no sítio onde está, nem sequer convive com ninguém, não tem ninguém que a conheça. (…) [Na Sé,] havia sempre um convívio, à noite, nós juntávamo-nos todos, vínhamos até ao café, conversávamos todos cá fora… Ali não, é cada qual por si. É um bairro, mas ‘tá tudo metido em casa, ninguém se conhece. A minha mãe, que estava habituada a conviver, vinha até cá fora, pronto, convivia, nem que se sentasse num muro… Ela olhava, vinha uma vizinha, conversava… Ela ali, ela vem, olha pra todo o lado, não há ninguém que conheça, a minha irmã a mesma coisa… Tanto que a minha irmã está lá e diz ‘Aqui não se passa nada, às nove horas da noite não se passa nada’… E é verdade”.

©Susana Neves

Comparações deste tipo são muito recorrentes, em especial nos nossos dias e no Centro Histórico do Porto. Quem estuda as coisas da memória dir-nos-á, entretanto, que esta tem selectividades muito específicas: é um ponto de vista sobre o passado, mas que carrega consigo todas as marcas da trajectória posterior e da situação presente, assim se explicando a invariável presença desse sentimento de que “antigamente é que era!” sempre que o presente e o futuro que ele deixa antever são de certa forma decepcionantes e precários. Neste sentido, a nostalgia de Pichoche e Keka, como de muitos outros seus conterrâneos, diz provavelmente mais sobre a realidade hoje por muitos vivida no Centro Histórico do Porto do que sobre o passado que aparentemente evoca.

Por João Queirós (investigador no Instituto de Sociologia da UP) publicado in http://www.10pt.org/

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