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Paulo Magalhães, 42 anos

Paulo Magalhães, 42 anos

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QUANDO viu na televisão as imagens da tentativa, patética e mal sucedida, da marinha espanhola empurrar o Prestige para as águas territoriais portuguesas, Paulo Magalhães, 42 anos, estava a pensar num diferendo no condomínio de sua casa. Uma vizinha pretendia que fossem todos a pagar o arranjo de umas janelas exteriores no seu apartamento, alegando que a obra beneficiava todo o prédio ao evitar a infiltração de águas.

Licenciado em Direito na Católica (Porto) e pós graduado em Direito Ambiental (Coimbra), Paulo relacionou, numa feliz sinapse, as imagens do petroleiro naufragado com o problema doméstico e concluiu que o seu prédio era um micro-cosmos do que se passa na Terra e que urge estabelecer regras e organizar a vizinhança global, dotando o planeta de um condomínio que impeça usos abusivos do bem comum.

Independentemente do Prestige naufragar em águas portuguesas ou espanholas, a mancha de petróleo derramado ia espalhar-se ao sabor das correntes, sem respeito pela linha de fronteira artificialmente riscada pelo Homem, e o impacto negativo desta maré negra (tal como está a acontecer no golfo do México) seriam sempre multinacionais.

“Condomínio da Terra. Das alterações climáticas a uma nova concepção jurídica do planeta” é o título do livro (já traduzido em inglês) onde Paulo expõe a teoria que deu corpo ao projecto Condomínio da Terra que lidera, com o apoio da Quercus e das 19 mil pessoas que já assinaram a Declaração de Gaia.

Almoçamos em Gaia, no Três Séculos, das Caves Taylor’s, o restaurante de onde se desfruta da mais soberba vista panorâmica do Porto. Foi aqui, que em Junho do ano passado se realizou o jantar de encerramento do conclave internacional que aprovou a Declaração de Gaia, constitutiva do Condomínio da Terra. Paulo não resistiu à piscadela de olho. Gaia é famosa por albergar as caves de Vinho do Porto mas é também o nome da deusa da Terra, que sucedeu ao Caos da confusão entre céu, águas e terra.

Ambos optamos por um lombo de bacalhau em cama de brandade de polvo (que estava delicioso teria custado 15 euros a dose, não fora a gentil teimosia da gerência em não trazer a conta e oferecer as refeições), bem acompanhado por um Evel tinto, que oleou a conversa com o único fundador da Quercus que, 25 anos depois, se mantém activo na mais conhecida organização ambientalista portuguesa e que, por influência dos documentários “O Homem e a Terra”, de Félix Rodriguez de la Fuente, se tornou militante da causa ecológica logo no início da adolescência – aos 13 anos já dirigia o Grupo de Expedições Científico-Naturais do Porto.

Paulo estudou leis (“tinha a noção que o Direito ia ser importante na questão ambiental”) e foi fotógrafo profissional (trabalhou para a Getty Images e são da sua autoria algumas das imagens de promoção do turismo em Portugal) mas nunca mais abandonou a militância na protecção e recuperação dos eco-sistemas.

“O bem e o mal que se faz à Terra circula livremente pela atmosfera, hidrosfera e biodiversidade. Não se detém nas fronteiras. A Amazónia não consegue reter, capturar, todo o serviço ambiental global que presta ao planeta. Se desflorestassem a Amazónia, em poucos anos deixaria de haver peixe, porque os oceanos são alimentados com a matéria orgânica que cai ao rio e é transportada pelo Amazonas. As árvores são muito mais valiosas para a humanidade vivas do que transformadas em madeira. O problema é que só têm valor económico quando são abatidas e convertidas em madeira. De que é que as próximas gerações precisam mais? De papel ou de árvores vivas?”, pergunta.

A declaração de Gaia propõe uma nova contabilidade mundial, que reponha a justiça ao premiar quem contribui de forma positiva e relevante para a conservação do planeta. “Caminhamos para a catástrofe se não mudarmos o paradigma de predação na Natureza”, alerta Paulo, que cita o inventor da teoria da relatividade para justificar o projecto Condomínio da Terra: “Não se acham terras novas com mapas velhos. Como nos avisou o Einstein, não podemos resolver um problema usando o mesmo nível de pensamento em que estávamos quando o criámos”.

Jorge Fiel in http://bussola.blogs.sapo.pt/

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