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Patrícia Lino, 20 anos

Patrícia Lino, 20 anos

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PATRÍCIA Lino é estudante de Línguas, Literaturas e Culturas – Variante Português/Línguas Clássica, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), e é a impulsionadora do Projecto Clarice. Escutou Clarice Lispector numa conversa entre amigos, num dia quente de Verão. Assim, começaram as suas leituras claricianas e desde então “tem sido uma viagem sem regresso”.

Começou, na verdade, por ser um segredo, como muitas coisas o são entre as paredes do seu quarto. São-no as sinfonias de Mahler, é-o a poesia de Cavafy, são-no as reproduções baratas dos quadros de Schiele. Etc, etc. Cada segredo tem as suas formas. O segredo de Clarice, ao contrário de outros, quis deixar de ser segredo para passar a ser partilha. E como partilhar este não-mais-segredo? Como convencer as pessoas lá fora? As ideias surgiam, espalhavam-se por aí: primeiro, a fotografia. Depois, o blogue. Mais tarde, os vídeos, os cartazes, os flyers…

Patrícia diz, feliz, nunca ter pensado “que a mensagem passasse tão facilmente. Não posso dizer  [que] “todos” [a conhecem], mas posso dizer [que são] “bastantes”. Nada se pode comparar à alegria que é receber cartas ou e-mails de todas as partes do globo.”

O fascínio não se explica, sente-se. As palavras de Patrícia denunciam a emoção e devoção que sente pela escritora: “Clarice escreveu, num pequeno apontamento diário, que não tinha percebido aquilo que diziam, num encontro amigável, o arquitecto Sérgio Bernardes e outros estudiosos da época. Por isso, tratou, na altura, de ir bebendo um e outro gole de Coca-cola. Há qualquer coisa em Clarice Lispector que não consigo decifrar. Ao olhar, como exemplo maior, A Paixão Segundo G.H., tendo a perder a respiração. Logo, a única coisa que me resta é engolir um e outro livro. Continuamente.”

E, assim, conhecer Clarice é como respirar ou, então, perder a respiração.

– Clarice Lispector porque…

Quase me mata e, ao mesmo tempo, me faz querer viver para voltar a lê-la outra vez.

– De que mais gostas na Universidade do Porto?

Para lá das sucessivas organizações de colóquios, seminários e outros modos de apresentação cultural e da qualidade dos nossos investigadores, a Universidade do Porto dá também ao estudante a oportunidade de conviver com estudantes de todos os cantos do mundo: quer aqui quer “lá”, seja “lá” isso onde for.

– De que menos gostas na Universidade do Porto?

Utilizarei um exemplo bem simples: actualmente, para realizar uma qualquer unidade curricular singular (isto é, uma disciplina extra-curricular ao seu plano de estudos), o estudante da Universidade do Porto tem de pagar. A aprendizagem deveria ser um direito, não um negócio. E já que aqui referi a qualidade dos nossos investigadores, aproveito a deixa para dizer que é necessário mais apoio no que toca a esse campo.

– Uma ideia para melhorar a Universidade do Porto?

Tornar os preços de qualquer tipo de actividades extra-curriculares (cursos livres, intensivos, workshops) mais acessíveis. Dar ao estudante a possibilidade de aprender sem que tenha de pagar por isso.

– Como preferes passar os tempos livres?

De livro, música e lápis à mão. De preferência, tudo ao mesmo tempo.

– Uma viagem de sonho (realizada ou por realizar)?

A viagem ao Brasil que (infelizmente) nunca fiz.

– Um livro preferido?

Esta é uma das mais terríveis questões de todos os tempos. “Um” é sempre muito pouco. Não respondo com um título, mas com uma lista (incompleta e desordenada) de nomes que nunca se acabam. Digo Homero, Anacreonte, Safo, Eurípides, Plauto e Ovídio. Não há nada como Ovídio. Respondo com Shakespeare, Hölderlin, Brecht e Tchekhov. Digo Murilo Mendes, Mário de Andrade, W.H. Auden, Ferreira Gullar, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Nelson Rodrigues, Mário de Sá-Carneiro, Hilda Hilst, Constantino Cavafy, Ana Cristina Cesar, Sophia de Mello Breyner, Plínio Marcos, Sylvia Plath, Daniel Faria, Herberto Helder. Respondo com Machado de Assis, Eça de Queirós, Gonçalo M. Tavares, Junichiro Tanizaki, Vergílio Ferreira, Clarice Lispector, Vladimir Nabokov, Julio Cortázar, Caio Fernando Abreu, Dostoiévski e Raul Brandão.

– Um disco preferido?

Esta é outra entre as mais terríveis questões de todos os tempos. Dizer Bach não chega, porque logo me ocorrem Mahler e Tchaikovsky. A isto chamamos “clássico”, mas também quero aqui dizer “jazz”, “bebop”, “soul” e “bossa-nova”. E aí, lembro que esqueci os franceses, a música asiática que tenho vindo – com espanto – a descobrir, e mais umas quantas outras vítimas da minha distracção.

– Um prato preferido?

Lembro agora a minha muito positiva reacção ao provar Sururu. Também não resisto a um bom Bacalhau à Brás.

– Um filme preferido?

Der Müde Tod de Fritz Lang. Pierrot le fou e Le mépris de Jean-Luc Godard. Splendor in the Grass de Elia Kazan. Manhattan de Woody Allen. The Dreamers de Bernardo Bertolucci. La tigre e la neve de Roberto Benigni. The Reader de Stephen Daldry, e muitos mais…

Publicado in http://noticias.up.pt/

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