NO próximo dia 6 de Agosto, comemorar-se-ão noventa anos do nascimento do poeta Albano Martins (Fundão, 1930 – V. N. de Gaia, 2018). E, a 6 de Junho de 2020, passaram dois anos sobre a sua partida.

A publicação, em 2017, de Poemas Escolhidos – 99 poemas (A.23 Edições, 2017) revelava-nos toda a beleza da sua poesia sóbria, elegante, mas apaixonada – uma antologia que o próprio autor de Secura Verde (1950) e de Rodomel, Rododendro (1989) ainda organizou, com um espírito desafiadoramente matemático: três poemas por livro anteriormente publicado (exceto no caso do último, de que apenas são selecionadas duas composições). No fundo, 99 poemas no total. O três é esse número suscetível de sugerir “uma ordem intelectual e espiritual, em Deus, no cosmos ou no homem”, como apontam Chevalier e Gheerbrant. Estruturado, pois, sob a égide do simbolismo triádico (mas também, noutra ótica, sob o signo da dualidade), o livro e as circunstâncias da sua organização permitem intuir como a escrita de Albano Martins sempre se situou nessa irresolúvel tensão entre Eros e Thanatos, e, no plano metafórico, se alimentou da concretude natural, sem nunca se dissociar da música – que seduz e preenche a voz do sujeito poético, tanto no domínio do diálogo intertextual como no plano fónico e rítmico.

Esta poesia manifestou sempre, por outro lado, quer a sua dívida em relação à poesia grega arcaica e a alguns clássicos do helenismo (que nutrem também o seu modus dicendi moral) quer a atração por alguma poesia oriental, em especial pelas formas breves japonesas (de Bashô e outros).

Uma primorosa antologia, em suma, ilustrada com desenhos de José Rodrigues em torno do motivo da cereja, que bem evidencia a singularidade desta escrita tão vinculada à natureza e à sua vitalidade.

Fundão, Vila Nova de Gaia, Porto (seus lugares de vida e de escrita), o país como um todo nunca conseguirão saldar a dívida de gratidão relativamente a este escritor, quer como grande poeta que foi, e co-organizador das folhas de poesia “Árvore” (era autor de prosas também elas límpidas e cativantes), quer como insigne e premiado tradutor, a quem ficaremos a dever a leitura, em português, da poesia grega arcaica, de Ovídio, de Catulo, de Neruda, de vários poetas italianos (por exemplo Leopardi) e espanhóis, do palestino Mahmoud Darwich, de tantos outros. Um património inestimável que não deixará de acentuar a nossa saudade. Até porque Albano Martins, além de reconhecido professor, era também um homem bom, cultíssimo, de grande elegância espiritual e de reconhecida estatura ética.

Recordemos então um poema de Albano Martins, de cenário portuense:

ENTARDECER NA PRAIA DA LUZ

Espreguiçados, os ramos
das palmeiras filtram
a luz que sobra
do dia. É já noite
nas folhas. O branco
das paredes recolhe
o sangue e o vinho
de buganvílias
e hibiscos. Bebe-os
de um trago: saberás
que, mais do que cegueira, a noite
é uma embriaguez perfeita

in Castália e Outros Poemas, Campo das Letras, 2001

Por José António Gomes publicado in A inocência descompensada

IEL-C (Núcleo de Estudos Literários e Culturais da ESE do Politécnico do Porto)

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