O Jardim Botânico do Porto ofereceu-me este silêncio, luz e sombra, sem quaisquer plano, num jogo de introspecção, de prazer, regressando eu, sempre, de bolsos cheios de imagens que não tinham destino certo, nem intenção de mediação entre a experiência vivida e a partilha, sem cor para encantar.

Estas fotografias são uma das múltiplas leituras possíveis, do momento, de plantas e árvores deste jardim que aqui e ali habitam, de recantos, onde a luz desenha através delas as sombras dançantes, e da presença humana que se quer com ela confundir.

Trilho a gravilha dos seus corredores, do jardim em silêncio, e, elas disponíveis, evocam-nos o silêncio e a luz, as emoções e as palavras.

Recorrendo às palavras de Alberto Manguel: as imagens que constituem o nosso mundo são símbolos, signos, mensagens e alegorias. Ou talvez sejam apenas presenças vazias que preenchemos com os nossos desejo, experiência, questionamento e remorso. Seja como for, as imagens, como as palavras, são aquilo de que fomos feitos.

João Paulo Coutinho

*

O JARDIM

O jardim está brilhante e florido,
Sobre as ervas, entre as folhagens,
O vento passa, sonhador e distraído,
Peregrino de mil romagens.

É Maio ácido e multicolor,
Devorado pelo próprio ardor,
Que nesta clara tarde de cristal
Avança pelos caminhos
Até os fantásticos desalinhos
Do meu bem e do meu mal.

E no seu bailado levada
Pelo jardim deliro e divago,
Ora espreitando debruçada
Os jardins do fundo do lago,
Ora perdendo o meu olhar
Na indizível verdura
Das folhas novas e tenras
Onde eu queria saciar
A minha longa sede de frescura.

Sophia de Mello Breyner Andresen | “Dia do mar”, pág. 15 | Edições Ática, 1974

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