TEM sido muito evidente, nos livros de João Pedro Mésseder, a herança do poeta brasileiro Mário Quintana, com os seus poemas curtos, aforísticos, mas de uma enorme complexidade no modo de perspectivar pormenores do vastíssimo mundo que nos rodeia, povoado de ângulos e arestas. João Pedro Mésseder, em A Doença das Cores seguido de Ilhas de Deus (Poética Edições, 2016), revela-se também mestre na arte do poema curto, suficientemente lúcido, para representar não uma faceta do mundo, mas para propor, instituir mesmo, um prisma de visão sobre ele, que necessariamente transfigura a nossa percepção. Este novo livro prossegue nesta linha poética, quase fenomenológica, que pensa as coisas do mundo não como elas supostamente são, mas como se apresentam ao sujeito, que necessariamente lhes acrescenta persuasivo poder metamórfico.

A perplexidade sobre as cores que o mundo nos oferece ocupa a primeira parte do volume, associando um significado metafórico a cada uma delas, tantas vezes adoptando uma preocupação social, fazendo jus à ideia de que toda a escrita é, afinal, necessariamente uma escrita política, mesmo quando os seus meandros são necessariamente subtis. Leia-se, a propósito o poema citado: «Se é negra /a fome // porque é branca / a cor / do que não come?» ou «Deus / não tem cor. // Repartiu-a / em mil pigmentos / pelos homens.». Com um dos poemas desta primeira parte dedicado à Guerra Civil de Espanha, outros com referências literárias especificadas (José Gomes Ferreira, Rimbaud, Alexandre O’Neill), esta primeira parte do livro expõe-se como uma perplexidade perante a cor e perante a palavra que a diz, numa procura de sentidos sinestésicos, a descobrir símbolos novos, mostrando que a capacidade de ter um olhar de estranheza sobre o mundo é o que distingue o olhar do poeta:

Não há cor
que mais emigre
do que o negro.

Não há cor
mais expulsa
do que o negro.

Não há cor
que mais se afogue
do que o negro.

Nem cor
que o mar
mais devore.

A segunda parte do livro, «Ilhas de Deus» prossegue nesta perplexidade de um olhar sobre o mundo e na exímia capacidade de dizer o máximo com o mínimo, através de poemas que atingem a proeza de iluminar percepções sobre pequenos pormenores de espaços, de sítios únicos, individualizados, que se tornam ilhas, pontos únicos na percepção do poeta. Leia-se, a título de exemplo, o curto poema dedicado ao parlatório da prisão de Peniche:

O parlatório
da prisão
de Peniche
tão perto
do mar
que não se aquieta.

Por Rita Taborda Duarte publicado in A inocência descompensada

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