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Maria Manuela Salgado (1942)

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MARIA Manuela da Graça Pinheiro Salgado nasceu na Póvoa de Varzim em 1942. Fez a 4ª classe, casou aos 26 anos e é mãe de duas filhas. Trabalhou mais de vinte anos no extinto balneário Povoense. “Vivi muito pouco a minha infância. Andava na escola e já ajudava o meu pai nos banhos quentes. O balneário foi aberto pelo meu avô Francisco Pinheiro, em 1915. Ficava a norte da Esplanada do Carvalhido e nós vivíamos na casa ao lado, virada para a Rua Latino Coelho, onde nasci. Embora tivesse passado a pertencer aos herdeiros o meu pai, Eduardo Pinheiro, ficou responsável pela manutenção do balneário até ao seu encerramento a 4 de Junho de 1973. Eu aprendi a dar os banhos todos e trabalhava com a minha tia e tios. Éramos 11 irmãos e todos ajudavam, dentro do possível. O meu pai só tinha uma empregada, a tia Ana, que era responsável por acender os fornos e ligar as caldeiras de madrugada”.

Os banhos quentes traziam à Póvoa de Varzim milhares de pessoas, como recorda Manuela Pinheiro: “começavam a vir em Junho e terminavam em meados de Novembro. O Verão era muito comprido. Quem fechava os banhos quentes eram os lavradores que vinham das aldeias como Amorim, Terroso, Balasar ou Rates, sempre depois de fazer as colheitas. Tomavam o banho de manhã e iam para os quartos. De tarde sentavam-se na praia a conversar e depois iam para as igrejas rezar. Traziam pipos de vinho, batatas, cebolas, carnes, louças e talheres. Nos quartos alugados, era a pessoa da casa que cozinhava e ficava com o que sobrava. A Rua Latino Coelho era um pandemónio com o movimento de carrinhas e carros de bois. Chamavam-lhes ceboleiros, mas eram divertidos e alguns muito ricos. Depois do banho, nunca se adoçavam. Achavam que a salitra tinha que ficar na pele, tinham que transpirar e só assim é que fazia bem”.

A água salgada chegava ao balneário por um tubo enterrado no areal até perto da língua da maré. Para proteger da areia, tinha uma pinha e uma rede de cobre dentro de uma caixa de madeira. “O balneário trabalhava quase noite e dia. Geralmente a caixa estava submersa e podia-se tirar sempre água. Mas por prevenção aproveitava-se a maré cheia para encher um grande depósito de água. Tínhamos dois chuveiros grandes e a sala do duche tinha seis cabines. Havia três caldeiras aquecidas por uns fornos a lenha. A cinza era tirada da fornalha para um monte. Em Dezembro, vinham os lavradores de Rates e levavam a cinza, em carros de bois, para fertilizar os campos”.

A maioria dos banhos quentes era receitada pelos médicos, para curar o reumatismo, artroses, tromboses, artrites, ciática e sistema nervoso. Manuela Pinheiro explica a metodologia usada: “nós temperávamos a água entre 37 e 39 graus. Depois com o dedo na ampulheta, controlava-se a força da água, para fazer uma massagem com o jacto a percorrer o corpo. No duche tínhamos aventais, chamados tapa-tarecos, para as mulheres e homens. Os banhos podiam não curar a doença mas as pessoas passavam um Inverno melhor. Havia pessoas que vinham todos anos para tratamento. Em Agosto, vinham das fábricas da Trofa, Santo Tirso, Guimarães e Vizela. Lembro-me de vir gente de Vila Real, Chaves ou de Murça. Havia ainda os banhos de algas e o tratamento de banho escocês, que era um duche mais brando e que terminava com jactos de água fria pelo corpo todo. Era como se a pessoa recebesse choques”.

O Balneário Povoense foi o último a encerrar, como relembra Manuela Pinheiro: “para continuar era preciso fazer um grande investimento na modernização. O meu pai foi a todos os sítios onde nos prometeram ajuda, mas isso nunca aconteceu. A Póvoa não quis os banhos quentes, para tristeza nossa e de muita gente que os frequentava”. E conclui: “ainda sonho com os banhos quentes. Sempre disse que não queria morrer sem voltar a trabalhar num balneário. Mas agora já não tenho tanta certeza”.

Publicado in A VOZ DA PÓVOA

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