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Maria de Sousa, 72 anos

Maria de Sousa, 72 anos

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MARIA de Sousa, 72 anos, investigadora na área da Imunologia, foi galardoada este ano com o Prémio Universidade de Coimbra. Aluna na Faculdade de Medicina de Lisboa, saiu como bolseira para Londres no dia 29 de fevereiro de 1964, ano bissexto, para não se ”esquecer”. Lá, a imunologista fez notáveis descobertas: a Área T e a Ecotaxis. Em 1975, Maria de Sousa parte para os Estados Unidos e, apenas onze anos mais tarde, volta a Portugal para integrar o Instituto de Ciências Médicas Abel Salazar.

Sente-se reconhecida a nível nacional?

Eu nunca pensei nisso [risos]. Uma das coisas que uma pessoa aprende na ciência é que não se faz investigação para se ser reconhecida. Eu tinha um grande amigo que fez uma descoberta muito novo e ele dizia Que importância de fazer uma descoberta não é pelo reconhecimento, é pela serenidade. Se me perguntar se me sinto serena em vez de reconhecida, a minha resposta é que eu me sinto completamente serena. O reconhecimento é para mim uma surpresa.

O que a levou a sair de Portugal? Foi a ditadura que então vigorava ou o desejo de emancipação enquanto cientista?

Fui convidada no terceiro ano de medicina para realmente decidir se F queria fazer investigação. Eu queria fazer investigação. Depois as pessoas que me convidaram foram por parte do Instituto Gulbenkian [de Ciência]. Aquilo que sobretudo me levou a sair não foram razões… saí, sei lá. Houve colegas meus, rapazes contemporâneos, que saíram por causa da tropa. Esses tinham razões políticas. No meu tempo ainda não havia mulheres na tropa portanto eu só saí pela investigação. [risos]

Porque é que decidiu fazer investigação?

Isso é uma pergunta importante. Não sei se é importante para vocês, eu acho Que é importante para a história da medicina. Eu fiz medicina, nos anos 50. Uma pessoa se estava atenta percebia que tinha muito pouca coisa para oferecer. A pessoa era simpática, falava com os doentes, tratava-os bem, mas a gente tinha poucos antibióticos e cortisona. Eu sentia muito que era preciso fazer investigação para saber mais.

Reparou que havia diferença internacionalmente?

Não havia diferença no que havia para oferecer, o que havia diferença era na atitude para aprender, isso é que era fundamentalmente diferente. Na Faculdade de Medicina da Lisboa os professores sabiam. Sabiam mesmo. Depois só tinham que ir à Biblioteca para perceber que não sabiam tanto como julgavam, ou nos faziam crer. Eu fui para Londres, fui para um laboratório em Mill Hill. Tinha oportunidade de conhecer as pessoas, os maiores nomes nas várias áreas. E lá as pessoas não sabiam… e eram os grandes nomes das áreas. Isso foi a experiência mais importante. Depois ainda vim para Portugal. Não correu muito bem porque as pessoas não estavam muito interessadas no que eu tinha feito. Havia pessoas, por outro lado, na Europa, que estavam interessadas e fui convidada para ir para Glasgow.

O que foi, fundamentalmente, a descoberta da “Área T”?

Na altura, portanto nos anos 60, já tinha sido descoberto que o timo [órgão linfático] tinha uma função importante como fábrica de linfócitos, mas ainda não se percebia muito bem se fazia todos os linfócitos. A nossa contribuição constitui-se no estudo dos órgãos linfáticos dos animais a quem se tinha tirado o timo no período neo-natal. Eu olhava para o baço, olhava para os gânglios linfáticos e comecei a ver, porque eu tinha uma bela preparação ao microscópio que tinha adquirido em Lisboa, que havia sítios nos órgãos linfáticos em que não havia células, e à volta havia. Portanto era óbvio para mim que as células que normalmente ocupavam aquela área vinham do timo, porque tirava-o e não apareciam células ali. Isso foi uma contribuição importante e na altura eu queria chamar-lhe já “Área T”.

E a Ecotaxis?

Isto segue-se porque nós tínhamos a possibilidade de marcar as células e ver para onde é que elas iam, marcavam-se com radioisótopos. A Ecotaxis é a capacidade que as células têm de descriminar entre vários microambientes. Encontram o seu próprio ambiente. Eco quer dizer “casada” e taxis significa “arranjar” .

Há algum problema que consiga identificar no nosso sistema educativo?

Acho que sim. E já que estamos aí, você está atento ao que está a acontecer com a popularidade dos Deolinda? E o que é que a frase dos Deolinda diz? O que é que a repetição dos Deolinda diz? “Para sermos escravos temos que estudar”. É a frase-chave da canção deles. A culpa é dos professores, mas também é vossa. A experiência de estudar para o exame é uma coisa terrível [risos] e, nessa altura, a pessoa é realmente escrava, precisa realmente de estudar. É escravo da disciplina, é escravo do professor, é escravo, é verdade… mas para deixar de ser escravo tem que aprender. Imagine que eu tinha ido para Inglaterra com o que tinha aprendido, com o que tinha estudado. Era um desastre. Aquilo que nós devemos preparar nos nossos alunos é a capacidade de aprender porque, sobretudo na tecnologia, as coisas estão a mudar à medida que nós estamos a fazer a entrevista [risos]. Portanto o que você tem que saber é aprender. Não tem que saber o que já se sabe, quer dizer… tem que saber o que já se sabe, sim, mas com uma atitude de aprender outras coisas, de ser capaz de aprender o que vem a seguir. Se souber só uma coisa não vai a sítio nenhum, fica escravo daquilo que sabe. O que é importante é educar a capacidade de aprender, mas não é fácil.

Acha que os estudantes estão a perder a capacidade de evoluir, se não aprenderem a aprender?

Não, eu tenho que acreditar em vocês, eu acredito que têm essa capacidade. Eu acho que o sistema está feito de uma tal maneira que os alunos não são encorajados a aprender.

Como é que encara o sistema educativo no que concerne ao pagamento de propinas e das manifestações estudantis em torno do financiamento do Ensino Superior?

Eu tenho uma posição muito radical relativamente à questão das propinas. Você imagine, as propinas no primeiro ano são 2750 euros, se um aluno faz um doutoramento inteiramente nos Estados Unidos isso é aproximadamente 3500 dólares. Para um aluno que não possa obter bolsa, pode ser muito dinheiro. De facto eu estou pessoalmente a bater-me por onde posso. Quer dizer, a persuadir o reitor, a persuadir o reitor a persuadir o Conselho Geral. Tudo isto é persuasão, não é ir para a rua. Acho que numa democracia em que as pessoas acabam por ir para a rua há qualquer coisa que não está completamente bem. Isto por um lado, por outro o ensino público está a ter dificuldades em ser financiado. Todos temos esta noção. Naturalmente que as universidades acham que uma forma de ter a certeza que têm ‘income’ é com as propinas, percebe-se, uma pessoa percebe isso. O país tem manifestamente uma grande preocupação com os seus estudantes. Se só têm que pagar dois euros para entrar neste fantástico Museu da Ciência, e se vão aos Deolinda e pagam bilhetes de 15 euros, é porque os estudantes estão também a valorizar mais os Deolinda que os museus. Imagine que consegue mobilizar cem mil estudantes e cada um leva um euro em vez de uma folha de papel para dar ao ministro. Se dessem a uma causa cem mil euros talvez o professor [Paulo] Gama Mota fizesse alguma coisa interessante no museu para empregar uma data de gente.

Por Félix Ribeiro do jornal universitário “A Cabra” publicado inhttp://dererummundi.blogspot.com/

§

Um mundo imaginado, mas muito real

Em 1988, vivi de forma intensa e maravilhado “um mundo imaginado”. Uma experiência real de investigação científica através de um livro, com aquele título, então publicado na língua portuguesa pela Gradiva, editora que me ensinou a caminhar na ciência.

Linha após linha, página após página, eu, então jovem estudante de Bioquímica na Universidade de Coimbra, vivi 5 anos de uma história real e intensa de descoberta científica, num só fôlego, numa noite que se fez dia inúmeras vezes.

Vivi, através do relato rigoroso e apaixonado de June Goodfield, autora do livro, os dias e as noites sem horário, a entrega persistente e lúcida, os avanços e retrocessos, os obstáculos e os recuos, a alegria e o desespero silencioso do processo científico efectuado sob a linha do desconhecido por uma promissora cientista portuguesa a trabalhar nos Estados Unidos.

A cientista era a Bióloga Maria de Sousa, Professora Catedrática de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar,Jubilada em Outubro de 2009 (ver aqui vídeo da sua última aula) e agora homenageada pela Universidade de Coimbra com a atribuição do prémio desta instituição. Sublinho uma das inúmeras frases de referência que, nessa sua aula de jubilação, Maria de Sousa proferiu ao dizer, cito de cor, que ao longo da sua carreira só fez aquilo que sabia fazer: trabalhar!

A investigação em causa, uma caminhada árdua de cinco anos no Cornell Medical College, em Nova Iorque, na segunda metade da década de 70 do século passado e que produziu uma grande descoberta relacionada com o sistema imunitário, mais especificamente com o Linfoma de Hodgkin.

Mais do que um relato é um retrato vivo, com molduras que se abrem em novos quadros a cada obstáculo ultrapassado, com nevoeiros densos a dificultar a leitura de algumas derrotas, de becos aparentes que pareciam esfumaçar, com o folhear de uma página, anos de trabalho árduo.

Nesta hora de homenagem e reconhecimento da Universidade de Coimbra a esta sempre discreta mas incontornável referência do melhor da investigação científica, na sua área a nível mundial, realço a qualidade da sua dedicação ao trabalho científico, as descobertas que fizeram e fazem escola e que aparecem agora facilitados no tempo pela excelência da sua pessoa humana.

A enormidade da discrição enquanto pessoa contrasta abismalmente com a importância incontornável do seu trabalho científico. De referir que Maria Sousa produziu, desde 1960, artigos científicos cruciais à definição da estrutura funcional dos órgãos que constituem o sistema imunológico, descobrindo em 1971, um fenómeno que pode ser descrito pela capacidade de células imunitárias de diferentes origens migrarem e se organizarem em áreas bem determinadas dos órgãos linfóides periféricos, processo celular que designou e é conhecido por “ecotaxis”. Foi e é pioneiro o seu trabalho sobre a importância da homeostase do ferro no organismo e a relação das suas perturbações com várias patologias.

No capítulo da divulgação de ciência e da formação sobre o que é o dia-a-dia de quem faz ciência, deveria ser obrigatório ler este “Mundo Imaginado”, apesar de esgotado no editor (de June Goodfield, Gradiva, coleccção Ciência Aberta nº 9), para mim, e para muitos, um dos melhores livros sobre ciência e talvez o melhor sobre ciência em acção directa.

Para progredirmos temos de aprender com os exemplos dos melhores, independentemente da sua área. E no panorama da realização científica portuguesa das últimas décadas Maria de Sousa é incontornável. Ou, como ela com certeza corrigiria, o seu trabalho é que é incontornável.

Por António Piedade,  publicado in http://dererummundi.blogspot.com/

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