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Maria Comunista

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ANTES de começarmos formalmente a entrevista, Maria avisa: “Quereis que eu fale? Eu falo, mas vou botar a boca no trombone!”. O que será que esta Maria, que todos conhecem na Sé como Maria Comunista, tem para nos dizer de tão polémico? Avançamos para a conversa, intrigados. Gravador na mão, câmara ligada…  Maria está agora um pouco hesitante, como se lhe faltassem as palavras capazes de concretizar a ameaça de controvérsia inicial. Seguimos pelos tópicos habituais: o que achou da sua fotografia, como foi o percurso de vida e a trajetória pela cidade ao longo dos seus mais de setenta anos de vida (ela que viveu noutros locais para além da Sé, mas sempre “ali por perto”), como tem evoluído o negócio no mercado onde trabalha… A todos os assuntos Maria responde de forma sucinta, sem especial paixão. Até que finalmente chegamos ao tema gerador de toda a exaltação, de toda a discórdia, amor e ódio – a Sé, freguesia onde nasceu e onde vive e trabalha, pólo de tantas virtudes e de outras tantas desgraças.

“Eu falo porque não tenho medo!”

Maria contraria o que é habitual e decide acentuar o lado desgraçado do retrato. Sente que tem de divergir daqueles e daquelas que, ao pintar a Sé, optam quase sempre pelos tons mais risonhos. “Eu falo porque não tenho medo! As pessoas têm medo de falar”. Maria explica as razões do seu descontentamento: “Antigamente, isto aqui era uma família; agora não é uma família, é uma desfamília!”. Há as “casas degradadas”, o “abandono”, a negligência dos políticos que “não querem saber de nada”. Muita gente saiu e outra gente não quer ou não pode voltar. E, claro, há a “droga”. Maria Comunista fala sobre o assunto, não tem medo. Conheceu de perto, como muitas outras Marias da Sé, essa outra derrocada, aquela que tão facilmente transforma famílias em “desfamílias”, aquela de que, por isso, geralmente não se quer falar.

Por vezes, dizem-lhe para não falar sempre da “mesma coisa”, para evitar dar uma “má imagem” da Sé e do centro histórico. O retrato não é como o que é pintado pelos “de fora”, Maria sabe-o. Mas também não se vive na Sé como no melhor dos mundos. Por isso, Maria acha que não deve calar o seu desgosto. A “realidade” é “aquela” – e há momentos em que não vale a pena escamoteá-la: “Do meu lado, basta falar… que eles ainda assim respeitam. Sabem que estou a falar duma coisa justa, não é uma coisa indigna, é uma coisa justa”. Maria insiste no diagnóstico e no apelo: “O turismo quer entrar aqui na Sé e vê a pouca-vergonha e vai embora. Isto está vandalizado. Se estivesse aqui a polícia e botasse ordem, isto estava…”.

Se os apelos desta residente da Sé alcançarão os efeitos pretendidos, não se sabe. Sabe-se apenas que Maria Comunista não vai deixar de os lançar. A promessa é vitalícia: “Eu quando sair daqui é para o cemitério. Tomara eu ir já amanhã, mas a Maria está aqui, dura e forte, e sempre a lutar até que me cortem o pio”.

Por João Queirós (investigador do Instituto de Sociologia da UP) e Fotografia de Susana Neves publicado in http://www.10pt.org/

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