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Manuel Andrade (1969)

Manuel Andrade (1969)

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A FALÊNCIA da têxtil onde o pai trabalhava obrigou-o a interromper os estudos de Direito em Coimbra e a regressar a Santo Tirso onde vendeu Unos e Puntos para financiar os cursos de Psicologia e Gestão de Marketing que fez a estudar à noite. A publicação de dois livros de poesia e um de contos permitiu-lhe espreitar as portas do Paraíso. O sonho dele sempre foi viver da escrita e para a escrita. Cumpriu metade do sonho ao fundar as editoras Cão Menor e Novembro. Já só lhe falta ter tempo, dinheiro e disponibilidade de espírito para ganhar a vida a escrever

O ex-vendedor da Fiat

que é dono da Cão Menor

Nome:  Manuel Andrade

Idade: 41 anos

O que faz:  Empresário, proprietário das edições Cão Menor e Novembro

Formação: Licenciado em Gestão de Marketing, pelo IPAM, e em Psicologia Clínica pela Lusíada

Família:  Casado (a mulher é secretária na antiga Reguladora), têm uma filha de quatro anos, a Maria

Casa:  Moradia em Santo Tirso

Carro:  Fiat Qubo

Telemóvel:  Blackberry

Portátil:  Toshiba (o mesmo que tinha fundou a editora)

Hóbis:  O principal é a escrita, mas desconfia que não é uma profissão de futuro. Além de adorar ler e escrever, gosta de ir ao cinema e de futebol – é doente pelo FC Porto e todas as semanas joga com os amigos, no Colégio das Caldinhas, em Santo Tirso

Férias: Por absoluta falta de tempo, há dois anos que não tira férias. “O trabalho chega a ocupar-me 16 horas por dia”, lamenta

Regras de ouro: “Nada se conquista sem trabalho, pelo menos para mim tem sido assim – não sei como é com os outros. O segredo é trabalhar mais do que o normal”

Se algures no ano passado, parasse num semáforo, em Penafiel, aguardando pelo verde para atravessar a rua, distraía-se durante o tempo de espera lendo frases do Saramago escritas na passadeira. Era uma das originais manifestações da Escritária, um festival multidisciplinar promovido pela Câmara local, em parceria com a Editora Cão Menor, de Manuel Andrade, que todos os anos homenageia um escritor lusófono vivo – em 2008, o ano de estreia, foi Urbano Tavares Rodrigues, em 2009 foi o Nobel português, este ano foi a vez de Agustina.

Viver da escrita e para a escrita é o sonho de Manuel, nascido em 1969 na terra que se celebrizou pela excelência dos seus jesuítas, filho do matrimónio entre uma auxiliar de educação e um empregado de escritório numa fábrica têxtil. Quando, durante os estudos secundários, feitos na Escola Secundária D. Dinis, chegou a hora de escolher o curso, optou por Direito.”Dizia-se que estava a dar”, explica.

A notícia e as consequências da falência da têxtil onde o pai trabalhava surpreenderam-no em Coimbra. Estávamos em 1989. Como não havia dinheiro para continuar a estudar em regime de exclusividade, regressou à base (Santo Tirso) e começou a procurar um emprego que lhe financiasse os estudos. Só tinha uma pequenina objecção: estava disposto a tudo menos vender automóveis.

Como é bom de ver, foi trabalhar para a Firmauto, concessionária Fiat, a vender Unos e Puntos, tarefa de que se desembrulhou com algum sucesso, acrescentando comissões razoáveis ao ordenado fixo. Dava para pagar livros e propinas, sobrando-lhe ainda dinheiro, bem como tempo e disponibilidade de espírito para escrever dois livros de poesia (Por esta avenida sem fim e Quadras deste lugar à margem), publicados pela Brasília Editora, e um de contos, Contos de Varziela, assinado com o pseudónimo Manuel de Varziela (os avós agricultores eram de lá), editado pela Campo de Letras, que lhe abriu uma janela para ele espreitar a felicidade.

Como nada tinha a perder, enviou dois contos traduzidos para a Follio, onde alguém gostou do que leu, decidiu publicar o livro em França e pagar-lhe para ler manuscritos de autores lusófonos e dar a opinião sobre se deviam ou não ser editados. Durou apenas meio ano esta República de receber para fumar e ler. Mas soube-lhe pela vida.

Quando acabou esta doce vida, ainda se dedicou-se à psicologia antes de se abalançar a cumprir uma das metades do seu sonhe fundando em Penafiel uma editora com duas chancelas –  Cão Menor, onde se acomodam textos mais ousados e experimentais, e a Novembro, que, entre outras coisas, trás para a luz do dia dissertações de mestrado e teses de doutoramento: Começou na garagem e com um efectivo reduzido. “Era eu, o meu portátil e uma rapariga que à noite fazia o design dos livros”, conta.

Setenta livros e um best seller depois (Alma de Viajante, de Filipe Morato Gomes, que andou pelos tops da Fnac), acrescentou à edição iniciativas como a Escritária, a Plast&cina (festival multidisciplinar, em parceria com a Câmara de Lamego, que arrancou em 2009 com uma homenagem a Emília Nadal e prosseguiu este ano tendo José Rodrigues como tema) e o Concelho de Estado (parceria com a CM de Arcos de Valdevez inaugurada este ano com uma homenagem a Mário Soares), enquanto suspira por poder cumprir a segunda parte do seu sonho :  viver de escrever e escrever para viver.

Por Jorge Fiel, publicado originalmente no Diário de Notícias e depois republicado in http://bussola.blogs.sapo.pt/

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