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José da Cruz Santos: uma vida tecida de livros

José da Cruz Santos: uma vida tecida de livros

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NA PORTUGÁLIA, na Inova ou, agora, na Modo de Ler, criou livros que lograram resistir à passagem do tempo. A celebrar meio século de actividade literária, o editor portuense José da Cruz Santos ainda tem na poesia a paixão maior de uma vida intensa como poucas.

É para o futuro que Cruz Santos continua a olhar, apesar do percurso profissional ímpar. São vários os projectos que ainda hoje faz questão de abraçar, como a reedição integral da obra de Eugénio de Andrade, actualmente em curso, que lhe dão o alento necessário para continuar.

Não é dado a acessos de nostalgia, mas critica “os editores-gestores” da actualidade, que privilegiam os números à qualidade intrínseca das obras.

“Houve uma alteração qualitativa para pior”, reconhece aquele que é apontado como um dos últimos editores-bibliófilos portugueses, evocando a importância que figuras como Augusto Costa Dias, Jorge de Sena ou João Gaspar Simões desempenharam na direcção das respectivas editoras. Acredita mesmo que “está por fazer um estudo sobre o contributo dos editores para o desenvolvimento do país”, mormente durante a ditadura, quando os livros publicados, muitos dos quais interditos pelos regime, “ajudaram a transformar o pensamento de muitos milhares.”

Por “não conceber um editor avesso à leitura”, afirma que a edição representa um “prolongamento da paixão que nutro pela literatura desde muito novo” .

No ano passado, sofreu um dos principais desgostos da vida, ao tomar conhecimento da decisão do Grupo Leya de guilhotinar largos milhares de exemplares de edições históricas que se encontravam em armazém.

“O que o fascismo nunca fez – embora apreendessem os livros, não me consta que os guilhotinassem – fizeram-no eles”, lamenta. A tristeza foi apenas atenuada pela imediata onda de solidariedade em seu redor, com o testemunho abonatório de largas dezenas de personalidades da vida pública nacional, como Ramalho Eanes, Francisco Pinto Balsemão, Artur Santos Silva, Eduardo Souto de Moura ou Eunice Muñoz.

José Saramago, por exemplo, considerou-o “o melhor editor português”, acrescentando que “outros usufruirão de maior atenção, mas, em amor pelos livros, em gosto gráfico, em capacidade interventiva, não vejo ninguém capaz de pôr o pé diante de Cruz Santos“.

Confessando que “nunca mandou destruir um livro”, o actual editor da Modo de Ler não se mostra preocupado com a concorrência digital, até porque “os livros que publico, como poesia e álbuns, não serão tão afectados pelos e-books como os restantes”.

A par da poesia, as edições especiais são a maior predilecção. “Criar a partir do nada como se tudo houvesse” é um princípio que procura seguir com fervor ainda hoje e, graças a esse carácter inventivo, foi mentor de edições emblemáticas, de que Daqui houve nome Portugal”, antologia de poesia e verso sobre o Porto coordenada por Eugénio de Andrade, é o maior exemplo.

Eugénio, de quem publicou 60 títulos, é nome cimeiro das suas afinidades electivas, a par de “Camilo Castelo Branco, Cesário Verde, Luís de Camões, Mário de Sá-CarneiroVasco Graça Moura“.

Ao longo dos próximos meses, o infatigável editor prepara-se para levar por diante vários projectos de envergadura, sinal de que “o livro mais importante é sempre o seguinte”. “As coisas não estão fáceis, mas, valha a verdade, também nunca estiveram”, desabafa Cruz Santos. O primeiro destes livros, 7 artistas, 7 poetas, já está concluído e consiste num diálogo artístico entre figuras cimeiras da arte e cultura portuguesas, como Columbano, Amadeo de Souza-Cardoso, Almada Negreiros, Cesário Verde, Fernando Pessoa, Teixeira de Pascoaes ou Sophia de Mello Breyner Andresen.

Nos primeiros meses de 2012, chega às livrarias Os mais belos poemas portugueses escolhidos por 25 poetas, “que, muito possivelmente, irá ser a mais importante antologia de poesia portuguesa, graças à qualidade dos autores que participaram na escolha e selecção”, resume. Outra obra potencialmente marcante que o editor portuense tenciona publicar intitula-se 21 personalidades do século XX/XXI escolhem as 21 personalidades portuguesas do milénio. “É um livro com uma intenção patriótica”, assume o editor, “cada vez mais atento às nossas coisas”. O quarto e derradeiro livro, Alameda das glicínias, reúne quase uma centena de textos e poemas de vários autores sobre a flor predilecta de José da Cruz Santos, que no Japão é símbolo da amizade.

Por Sérgio Almeida in http://www.jn.pt/blogs/babel/

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