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José Augusto Rodrigues dos Santos, 69 anos

José Augusto Rodrigues dos Santos, 69 anos

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PARA José Augusto Rodrigues dos Santos, o desporto é muito mais do que a razão que, há quase 30 anos, o leva a levantar-se diariamente para dar aulas na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP). Ou então que o faz todos os dias pegar na bibicleta ou no kayak para treinar. “O desporto para mim é uma forma de vida”, resume o professor, que aos 69 anos, acaba de conquistar a medalha de ouro na taça do Mundo de Maratona em Canoagem, no escalão de veteranos.

Nascido e criado na  Baixa do Porto, José Augusto Rodrigues dos Santos cresceu a ver a Universidade como uma “miragem” alimentada pelas “tertúlias de sueca” a que o pai o levava no café Piolho. O 25 de Abril traria, contudo, a oportunidade de ingressar no ISEF/Instituto Superior de Educação Física da U.Porto (antecessor da atual Faculdade de Desporto), que o então jovem estudante e atleta de basquetebol saberia agarrar com unhas e dentes. “A Universidade abriu-me as portas e a muitos outros que sem aquele momento libertador teriam ficado excluídos da formação universitária. A Universidade do Porto soube transformar-se abrindo as portas à renovação”, recorda.

Licenciado em Educação Física (1981), viria a doutorar-se, anos mais tarde, em Biologia do Desporto pela FADEUP (1995). Sempre «fiel» à faculdade, especializou-se em Nutrição no Desporto e Treino Desportivo e foi desenvolvendo e dirigido, ao longo da anos, vários trabalhos científicos e pedagógicos relacionados com o desporto. Enquanto professor,  coordena o 2.º Ciclo em Treino de Alto Rendimento Desportivo e os gabinetes de Atletismo e Desportos Náuticos, sendo ainda responsável pela lecionação das disciplinas de Atletismo e pela Optativa de Remo-Canoagem.

Em paralelo com o percurso académico, traçou um trajeto de relevo ligado ao desporto de alto rendimento. Atleta internacional de canoagem e futebol, foi também treinador e preparador físico. Entre 1980 e 1984 orientou a seleção portuguesa de canoagem e, de 1999 até 2000, foi diretor técnico da Federação Portuguesa de Canoagem. Como Preparador Físico de Futebol, passou por várias equipas da 1.ª e da 2.ª divisão, tendo ainda  trabalhado com as seleções nacionais de futebol de Portugal (EURO’2000) e da Coreia do Sul (2003-2004).

Prestes a abandonar as salas de aula por motivos de jubilação, promete “continuar a trabalhar na Faculdade de Desporto pois, sem isso, a minha vida fica reduzida de sentido”. A nível desportivo, a ambição passa por brilhar no Campeonato do Mundo de Canoagem, que vai realizar-se em Vila de Prado, Braga, entre 3 e 9 de setembro.

Naturalidade?
Porto. Freguesia de Santo Ildefonso

Idade?
69 anos

De que mais gosta na Universidade do Porto?
A Universidade do Porto é o ex-libris mais válido da cidade do Porto. O crescimento da Universidade do Porto consubstancia a dinâmica das forças mais genuinamente transformadoras cuja valia e consistência pode ser aferida pelos rankings internacionais.

De que menos gosta na Universidade do Porto?
Dos professores benfiquistas e sportinguistas. Agora a sério. Esta Universidade tem sabido crescer com equilíbrio. Urge, contudo, abrir espaço às elites que formamos e que estão a enriquecer os nossos concorrentes. Temos de ser mais pródigos na criação de uma “task force” intelectual com os nossos melhores alunos evitando perder a qualidade que formamos.

Uma ideia para melhorar a Universidade do Porto?
Abrir espaço a um corpo de investigadores para lá dos quadros normais de docência e que lhes seja outorgada a segurança profissional e social que lhes evite as angústias do amanhã.

Como prefere passar os tempos livres?
Ler, sou um leitor compulsivo, e desporto. O desporto para mim não é uma forma de lazer, é uma forma de vida. Treino todos os dias e faço competição de canoagem. A bicicleta e o kayak não são objetos, são prolongamentos da minha corporeidade e mesmo da minha alma.

Um livro preferido?
O livro que marcou indelevelmente o meu crescimento intelectual. Li, aos 15 anos, “História da Filosofia Ocidental”, de Bertrand Russell. Este livro foi seminal para a minha formação. Outros livros: “Invocação ao meu Corpo” (Vergílio Ferreira) e “Complexo de Portnoy” (Philip Roth).

Um disco/músico preferido?
Discos da minha vida: Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band (The Beatles), Por Este Rio Acima (Faust0) e Mingos e Samurais (Rui Veloso).

Um prato preferido?
Tripas à Moda do Porto e Cabrito Assado.

Um filme preferido?
Difícil escolher entre os seguintes três: O CaçadorApocalipse Now e Blade Runner.

Uma viagem de sonho?
Aí vai para vos fazer inveja a todos. Estive a trabalhar, 2003-2004, na seleção de futebol da Coreia do Sul. Quando terminou o contrato regressei a Portugal por terra. Coreia do Sul, China, Tibete, Nepal, Índia, Paquistão, Irão, Turquia, Bulgária, Sérvia, Croácia, Eslovénia, Itália, França, Espanha e Portugal. Foram 41 dias fantásticos com saborosas aventuras. Mas, isso são estórias para as minhas memórias.

Um objetivo de vida?
Continuar a trabalhar na Faculdade de Desporto pois, sem isso, a minha vida fica reduzida de sentido.

Uma inspiração?
A minha professora de instrução primária, Dona Cândida Sá de Albergaria que me fez descobrir que afinal “Eu também podia”.

A sua história com a Universidade do Porto…
Nos meus 10 e 11 anos morei na rua da Fábrica. O meu pai levava-me muitas vezes ao Piolho onde tinha a sua tertúlia de amigos da sueca, desporto radical de alta competição, bem regado e bem fumado, praticado religiosamente todos os domingos na tasca do Júlio Lobo.

No Piolho conviviam, em saudável exclusivismo e sem contaminações demagógicas, as tertúlias dos trabalhadores e as dos estudantes e professores da Universidade. De uma forma quase tácita conviviam no mesmo espaço, mas ignorando-se mutuamente. O engraxador era o único que fazia a ponte relacional entre o lumpemproletariado e a estudantada e doutores, em colóquios exclusivamente futebolísticos.

Desse tempo de sonho e desprendimento, em que era obrigado a assistir às novenas de Maio na igreja das Carmelitas, retenho a reverencial admiração que os estudantes de Medicina me provocavam nas suas lutas titânicas contra os calhamaços de Anatomia ou Fisiologia.

Os estudantes universitários eram para mim semideuses do conhecimento que eu escutava respeitoso nas suas trocas de dúvidas e opiniões. Antes de qualquer outro sentimento a Universidade do Porto convocou em mim um respeito religioso que tinha nos estudantes do Piolho os seus mais ilustres acólitos.

Naquele tempo a Universidade, embora exaltada como templo do saber, era uma instituição que acentuava a segregação social pois as possibilidades de educação no país de então eram reduzidas e a taxa de analfabetismo muito elevada.

Sempre vi a Universidade como miragem, unicamente aberta a iniciados que tinham a sua via iniciática pela frequência do liceu. Eu, professo dos cursos técnicos sentia a Universidade como impossibilidade.

Quando comecei a jogar basquetebol no CDUP senti de imediato um sentimento de inferioridade em relação aos colegas universitários. Tentava colmatar o meu défice de formação treinando mais do que eles e elevando-me pela via desportiva, mas sentia que me faltava algo que só encontrei após o serviço militar.

Com o 25 de Abril, a Universidade do Porto abriu-me as portas e a muitos outros que sem aquele momento libertador teriam ficado excluídos da formação universitária. A Universidade do Porto soube transformar-se abrindo as portas à renovação. Hoje é uma escola plural, rica e diversificada, que responde com eficácia aos desafios duma sociedade em rápida transformação.

Hoje, pertencer à Universidade do Porto é fazer parte duma instituição que engrandece a cidade, a região e o país, e por isso nos obriga a uma superior responsabilização. Perscrutar o futuro é missão primeira da Universidade. Rejeitando transformar a Universidade numa fábrica de empregos devemos privilegiar uma formação plural, profunda e adaptada à procura de novas soluções profissionais quando as tradicionais se esgotam. Este desiderato só se conseguirá se as escolas que integram a Universidade do Porto pensarem a realidade na sua complexidade transformadora.

Por Tiago Reis e Sara Henriques publicado in http://noticias.up.pt/

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