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Joaquim Fernandes, 81 anos

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JOAQUIM Fernandes, um ex-taxista, residente na freguesia da Eja, em Penafiel, afirma ter sido taxista e amigo de Ferreira de Castro, um dos maiores vultos da literatura portuguesa, cuja obra está traduzida em praticamente todos os cantos do planeta.

No ano em que se assinalam os 120 anos das comemorações de nascimento (1898-1974) de Ferreira de Castro, Joaquim Fernandes revelou que Ferreira de Castro além de um exímio escritor, era um admirador profundo de Entre-os-Rios, do Hotel da Torre e do Grande Hotel das Termas de S. Vicente, criado no início do século XX, em 1905, espaço termal que foi ponto de encontro e de tratamentos de muitas figuras (da burguesia).

“Conheci-o precisamente no Hotel da Torre. Era taxista em Entre-os-Rios, onde tinha praça e trabalhei durante anos a fio”

Segundo Joaquim Fernandes, de 81 anos, Ferreira de Castro frequentou durante anos a fio primeiro o Hotel da Torre e posteriormente o Grande Hotel das Termas, símbolo de uma época imponente para as Termas e que continua a ser uma referência no concelho de Penafiel e a trazer a este espaço termal milhares de turistas.

“Conheci-o precisamente no Hotel da Torre. Era taxista em Entre-os-Rios, onde tinha praça e trabalhei durante anos a fio. Conhecia bem o Hotel da Torre, tinha lá amigos e muitos clientes e quando era preciso fazer algum serviço ou algum frete chamavam-me. Recordo-me que me ligaram para me deslocar ao hotel que o escritor, era assim que era tratado, Ferreira de Castro precisava de um táxi”,  disse, salientando que nunca tinha ouvido falar dele, mas travou com ele uma relação profissional que se manteve durante anos a fio, sempre que Ferreira de Castro se deslocava a Entre-os-Rios.

Segundo Joaquim Fernandes, o escritor terá escrito muitas das suas cartas em Entre-os-Rios, refugiando-se no silêncio do hotel e usufruindo das paisagens e do enquadramento aprazível de toda a área envolvente.

Hoje, sabe-se, que grande parte destas cartas, de teor literário, foram, entretanto, adquiridas pela Câmara de Oliveira de Azeméis, de onde o escritor é natural, fazendo assim parte do vasto espólio do escritor. A maioria destas cartas terá sido escrita entre 1947 e 1973.

Além de admirado pela sua escrita, Joaquim Fernandes confirmou que o escritor gostava de passear e chegou a fazer muitas incursões com ele ao concelho de Penafiel, à Honra de Barbosa, mas também, a Valpedre à zona sul do concelho e Arouca onde esteve algumas vezes.

“Numa dessas viagens a Arouca, no ano de 1966, recordo-me que íamos os dois no táxi, Portugal estava a disputar o Campeonato do Mundo, a selecção portuguesa marcou um golo, já não me lembro qual era o adversário, larguei o volante para festejar o golo e o Ferreira de Castro de supetão levou as mãos à cabeça e soltou a expressão: Ai, que morremos”.

“Ferreira de Castro era uma pessoas humilde”

Falando das viagens com o escritor, Joaquim Fernandes referiu, também, que chegou a percorrer praticamente todo o Minho com Ferreira de Castro, esteve em Guimarães, nas Caldas das Taipas, no Hotel Batalha e no Hotel Elevador, em Braga.

“Numa das deslocações a Braga, recordo-me que paramos num restaurante, para almoçar, mas estava à pinha. Assim que Ferreira de Castro se identificou, arranjaram-nos logo mesa”, avançou, salientando que o escritor era, também, uma pessoa bastante solidária.

“Quando o acompanhava em viagens mais longas cheguei a almoçar com ele, embora em mesas separadas. No final do repasto vinha sempre ter comigo e perguntava-se se o almoço tinha sido do meu agrado”, sustentou, sublinhando que o escritor nuca partilhou consigo qualquer preocupação do foro literário.

Ao Verdadeiro Olhar, o ex-taxista manifestou, também, que chegou a estar com o escritor na sua casa em Ossela, com uns amigos brasileiros do escritor, habitação que foi, entretanto, convertida em casa museu Ferreira de Castro.

Segundo Joaquim Fernandes, a casa do escritor retrata a sua origem humilde, era composta por dois pisos, sendo uma típica habitação agrícola que após a sua conversão em casa museu conservou alguns utensílios agrícolas da época.

Em finais da década de sessenta, o escritor doou a propriedade à autarquia, sendo a habitação, hoje, alvo de inúmeras visitas guiadas.

O octagenário confirmou, também, que Ferreira de Castro era um apaixonado pela fotografia, fazendo-se acompanhar por uma máquina e sempre que a ocasião se justificava obrigava-o a parar o táxi para fazer fotografias.

“Lembro-me que numa das vezes em que ele esteve em Entre-os-Rios, fui com o Ferreira de Castro a S. João da Madeira e, em Canedo, viu uma senhora com um cântaro à cabeça e um bebé ao colo e obrigou-me a parar para a fotografar”, acrescentou, assumindo que apesar de nunca ter lido nada do escritor reconhecia nele uma pessoa com qualidades acima da média.

Ferreira de Castro nasceu em Ossela, em Oliveira de Azeméis. Emigrou cedo para o Brasil, país onde iniciou a sua actividade como escritor. Exerceu ainda a profissão de jornalista, tendo trabalho no “O Século”, assumindo funções de director no jornal “O Diabo” e colaborador em várias revistas. O seu livro mais conhecida é  “A Selva”, obra que chegou a ser adaptada ao cinema. Está sepultado na Serra de Sintra.

Por Miguel Sousa publicado in Verdadeiro Olhar

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