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João Pedro Filipe, 32 anos

João Pedro Filipe, 32 anos

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JOÃO Pedro Filipe deu o nome do avô à sua marca de calçado de luxo, apresentada agora na London Fashion Week, em homenagem ao modo de produção artesanal. E ao avô. Tal como quase toda a gente na Benedita, uma vila do concelho de Alcobaça, João Pedro Filipe cresceu numa família ligada ao fabrico de calçado e marroquinaria. Aos 4 anos, via o avô José Prudêncio trabalhar sem parar na sua oficina doméstica e sair de bicicleta para ir entregar sapatos aos clientes. A imagem, que lhe parecia natural num clã composto por primas que cosiam sapatos à mão e um tio que fazia carteiras e malas de couro, acabou por marcar-lhe o destino. Aos 18 anos, quando decidiu estudar Design de Moda, ainda não sabia que os moldes de madeira herdados desse avô sapateiro serviriam de base para a coleção de sapatos e acessórios de luxo que vai apresentar, dentro de dias, na London Fashion Week, e lançar no mercado internacional.

João Pedro já não é o menino de 4 anos fascinado com a mestria do avô sapateiro. Uma professora do colégio onde fez o secundário encaminhou-o para o Citex, no Porto, atualmente Modatex. «Mesmo não sendo um curso superior, era a escola de onde saíam os melhores designers.» Agora, é lá professor e acabou por se fixar no Porto, em cuja cintura industrial encontra quase tudo o que precisa, com os centros produtores de calçado em Guimarães, Felgueiras e São João da Madeira.

Aos 32 anos, sentiu-se finalmente apto a lançar uma marca própria. É um designer de calçado experiente, conhecedor da indústria, que andou anos a estudar o mercado internacional, os modos de produção, a trabalhar com criadores de topo, a formar-se no Instituto Francês de Moda, em Paris, onde fez uma pós-graduação e acabou por desenhar um protótipo para uma coleção da prestigiada marca Louis Vuitton. Estagiou com Felipe Oliveira Baptista, com Helena Matos – fundadora do Citex e grande impulsionadora do ensino da Moda em Portugal – e, no ano passado, criou o calçado para a coleção outono-inverno 2012 de Maria Gambina, uns patins adaptados a saltos altos que ficaram na retina.

E assim João Pedro Filipe pegou nos moldes de sapatos de madeira do avô. Essas peças não foram a única coisa dele que utilizou – a marca chama-se senhorPRUDÊNCIO, em homenagem ao sapateiro da Benedita e também ao fabrico tradicional português, de grande qualidade. «O lado artesanal da minha coleção não tem tanto a ver com a estética, mas com os modos e sistemas de produção. Eu tenho sapatilhas e o meu avô não fazia sapatilhas, mas o packaging que eu uso são caixas de madeira, onde se podem guardar os sapatos, como ele também fazia», refere o designer.

Procurou os melhores em cada área a que precisou de deitar mão para criar os 12 modelos de sapatos, com duas cores cada, sacos, luvas e cintos da primeira coleção, Turbine, inspirada nos muscle cars dos anos 1970 e na poesia futurista de Álvaro de Campos, um dos heterónimos de Fernando Pessoa. Teve vinte fornecedores, incluindo peles, estamparia, moldes e cosedura. «Para cada momento da produção, escolhi a fábrica que melhor o fazia. Por exemplo, os goodyears foram cosidos à mão na Benedita e os desportivos em Guimarães», descreve.

design foi buscar inspiração nas linhas agressivas e na alta rendibilidade dessas poderosas máquinas exaltadas no cinema e ainda nos poemas modernistas de Pessoa. As cores e as texturas, com as peles polidas a dominar a coleção, evocam os metais. Os estampados gráficos, o movimento. Os 12 modelos arrumam-se em três linhas: DRIVERS, sapatos desportivos de pele de cabra; PORTO, sapatos de verão descontraídos, porém aprimorados; e ANTÓNIO, uma linha mais formal. Depois da London Fashion Week, a partir de 23 de setembro, a coleção estará no showroom do estúdio do estilista, na Rua D. Manuel II, no Porto. A cereja no topo do bolo da coleção é uma bicicleta Dry Drill, um modelo vintage, como aquela em que o avô José Prudêncio fazia a sua distribuição de sapatos.

«Era o tipo de bicicleta que se usava na época em que a coleção se inspira», explica, mas não só. O mercado que pretende atingir – homens urbanos na casa dos 30 e dos 40 anos, advertidos em matéria de moda, atentos ao panorama cultural contemporâneo e com poder de compra, de países do Norte da Europa e da Ásia – gosta de bicicletas. «Faz sentido por ser um meio de transporte por excelência para o público que quero atingir. Parte dos sacos que fiz são adaptáveis a bicicletas.» Portugal, à partida, não é um mercado preferencial, embora a marca possa ser vendida cá. João Pedro Filipe entende que os portugueses estão demasiado habituados a calçado e marroquinaria de alta qualidade. «É quase como ir vender o conceito bio no campo, onde as pessoas já controlam a origem daquilo que comem», compara.

E se um designer de moda português, à partida, é pago cinco vezes menos do que um italiano, a coisa pia mais fino quando se trata da reputação de Portugal como produtor de calçado de excelência. E o criador da Benedita associou à sua marca todos os sinais da portugalidade reconhecidos internacionalmente. «A marca senhorPRUDÊNCIO tenta exportar essa ideia de ser de confiança por ser feita em Portugal. Mesmo as grandes marcas de Itália estão a produzir em Portugal porque existe essa ideia», sublinha.

passerelle da London Fashion Week foi uma conquista suada de João Pedro Filipe, que a alcançou por via de um prémio – o British Council’s Young Fashion Creator Entrepreneur -, que o escolheu entre os criadores que participaram na plataforma Fashion Hub da Guimarães Capital Europeia da Cultural. Será o único português entre 21 designers de 19 países e não só pelo lindo couro dos seus sapatos, mas sobretudo pelo seu projeto de criação e internacionalização de uma marca e também da sua ideia de fundar a primeira associação portuguesa de designers de moda. «É preciso estruturar a profissão, dar-lhe apoio jurídico, criar regras de mercado, como uma tabela de preços, mas não só. A nossa profissão é completamente desregulada. E não temos direito a passar recibos verdes como designer de moda, ainda visto como uma não profissão», afirma.

Por Dora Mota in http://www.jn.pt/revistas/nm/

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