1197
0
COMPARTILHAR
Inicio Do Porto Joana Andrade...

Joana Andrade, 35 anos

Joana Andrade, 35 anos

0
1197

QUEM é] “Maria Joana Andrade [Idade] 35 anos [Onde nasceu] Porto [Quando veio para o Reino Unido] Outubro de 2003 [O que faz agora] Depois de muitas atribulações e duas crianças pelo meio [que aparecem na foto acima] a entrar na fase final do meu doutoramento no Departamento de Matemática do Imperial College London. [Onde estudou] Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

[Razão pela qual resolveu mudar] Sobretudo por vontade de conhecer coisas novas, mas também um bocado por falta de motivação profissional para continuar em Portugal na altura em que terminei a minha licenciatura.

[Algo importante que tenha aprendido aqui] Aprendi que, para o bem e para o mal, eu sou portuguesa – a nossa cultura é fortíssima. Também que trabalhar num ambiente de abertura e em que nós, e o nosso trabalho, somos respeitados e acarinhados é muito produtivo: os burros reagem melhor às cenouras do que ao pau.

[Uma imagem mental da Inglaterra] E um pais interessante, mas no sentido da maldição chinesa “que vivas em tempos interessantes”. Se por um lado é uma sociedade classista, algo xenófoba e pouco igualitária, por outro há um sociedade civil forte e as pessoas são participativas, os inquéritos públicos são levados até ao fim e a culpa não morre solteira. Há um respeito enorme pelo património natural, histórico e cultural e a nível dos cidadãos, não apenas institucional. Os museus, os parques e os teatros que são fabulosos. Tem provavelmente os melhores humoristas do mundo mas não compreende ironia. há um grande conformismo social e espera-se que todos ocupem um lugar pré-definido, mas, a par disso, há também tolerância para a excentricidade. Há um aspecto que para mim é especialmente espinhoso, que é o facto de ser muito difícil ultrapassar uma espécie de barreira que os ingleses constroem à sua volta (e é para todos, não apenas para os estrangeiros) e que torna muito difícil a evolução de qualquer relação de um mero contacto social para uma amizade.

E há também o tijolo burro, bairros e bairros de tijolo burro, as charity shops, as vendas de bolos nas igrejas, em que acabamos a tomar o chazinho na cripta sobre as sepulturas medievais. A música dos compositores Ralph Vaughn-Williams, Henry Purcell e John Dowland, que reflecte algo de intemporal e quintessencialmente inglês.

Há uma imagem mental pela qual tenho muito carinho, o dia em que levamos a minha avó a ver o Big Ben soar as badaladas da meia noite: quando ela era nova, durante a segunda Guerra mundial, o noticiário da BBC do Fernando Pessa era anunciado pelas badaladas do Big Ben e comoveu-a muito ouvi-las ao vivo.

[Qual é o projecto que anda a bordar] Muito pomposamente chama-se “Numerical Modelling of Salt Fingers” e corresponde a fazer uma simulação computacional de uns “tubinhos” que se formam espontaneamente nos fluidos e transportam fluido para cima e para baixo [ver mais detalhes sobre  os salt fingers aquiaquiaqui].

Dito assim, parece ser apenas uma curiosidade geofísica, mas pensa-se que os salt fingers serão um mecanismo que explicará fenómenos tão diversos como o transporte de sal das camadas superiores para as inferiores dos oceanos, alguns aspectos de formação estelar e até mesmo algumas estruturas observadas em metais e basaltos. A parte dos salt fingers oceânicos é especialmente importante, uma vez que é preciso ter bons modelos dos oceanos para poder modelar o clima.

O que fazemos, na prática, é resolver numericamente um sistema de quatro equações que não tem uma solução explicita numa “grelha” de milhares de pontos, como se de certo em certo intervalo de tempo pudéssemos fazer medições em cada ponto. Usamos as nossas simulações numéricas e alguma análise para tentar descrever e interpretar os ciclos de vida dos salt fingers e, dessa forma, tentar responder uma série de questões ainda em aberto (como por exemplo: Em que condições poderão existir na natureza? Até que ponto são um mecanismo eficiente de transporte vertical de substancias dissolvidas num fluido?).

Parece simples mas tem-se revelado um grande desafio.”

Publicado in http://bordadoingles.blogspot.com

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here