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Joana Abreu a preencher vazios

Joana Abreu a preencher vazios

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FOI no percurso entre a Faculdade de Belas Artes do Porto, onde frequentava o mestrado em Artes e Design para o Espaço Público, e a estação de comboio de São Bento, onde apanharia o transporte que a levaria a casa, em Valongo, que Joana Abreu despertou para uma inquietude: há imensas fachadas com azulejos danificados e a precisar de uma intervenção. E foi assim, do nada, que se fez o clique e que nasceria o projecto que resultou na sua tese e que marcou a sua vida nos últimos anos. Chama-se “Preencher Vazios” e não foge ao nome. Joana preenche, com azulejos de madeira, os vazios existentes nas paredes. Complementa-os com frases de autores portugueses e cores contrastantes para chamar a atenção das pessoas. O grande objectivo é salientar a importância da preservação do património azulejar do país. As suas intervenções artísticas estão sobretudo no Porto e em Lisboa, mas quer chegar a outras cidades.

“Sempre tive gosto pelas artes e não me via a tirar outro curso senão este”

Joana Abreu tem 26 anos e é de Valongo. Foi no concelho, onde ainda reside, que fez a escolaridade até ao 9.º ano. Só saiu para ir para o curso de Artes Visuais, que frequentou em Águas Santas. Seguiu-se uma licenciatura em Design de Interiores na ESAD – Escola Superior de Artes e Design, em Matosinhos, e um mestrado em Arte e Design para o Espaço Público na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.

“Em criança inventava coisas novas e depois vendia, fazia colares e postais. Eu e uma amiga tínhamos 10 ou 12 anos quando abrimos um café. A veia empreendedora está desde nova em mim. Sempre tive o gosto pelas artes e não me via a tirar outro curso senão este”, explica a designer.

E foi precisamente durante o mestrado, quando precisava de um tema para a tese, que lhe surgiu a ideia do “Preencher Vazios”. “O projecto surgiu no percurso entre a faculdade e a Estação de São Bento onde ia apanhar o comboio. Estava sempre a dar de caras com uma fachada onde faltavam alguns azulejos e isso começou a inquietar-me”, conta a jovem.

“Pensei em pegar nesse problema e transformá-lo num projecto para a tese. E foi mesmo assim”, recorda.

Começou a registar os vazios e a fazer testes. Primeiro apenas com papel, depois tendo como base a madeira. “Optei por usar madeira primeiro porque é um material barato e depois porque era mais fácil fazer os recortes para encaixar nos azulejos partidos”, refere. A madeira, coberta com papel que retrata o azulejo e frases de autores portugueses, vai de encontro a uma outra ideia inicial, a de fazer intervenções efémeras. “É giro ver o que o tempo faz à peça”, comenta. “Com a madeira sou eu que faço tudo e é um processo muito mais rápido. Se vou na rua e vejo uma fachada amanhã já posso ir lá fazer intervenção”, dá como exemplo.

O processo é simples. Quando vê uma fachada que lhe interessa fotografa o vazio e o padrão dos azulejos que ainda existem e mede com uma fita métrica. Depois, recria o padrão em programas de edição de imagem e altera-lhe as cores para “chamar a atenção para o detalhe e manter uma ligação entre o antigo e o novo”. Acrescenta-lhe uma frase de um autor português e imprime. Por fim, é só colar o papel ao azulejo de madeira e dar um acabamento com verniz.

Cerca de 70 intervenções já realizadas. A maioria no Porto e em Lisboa

O objectivo é chamar a atenção das pessoas para o problema. “É preciso fazer alguma coisa porque hoje em dia faltam muitos azulejos nas fachadas e ninguém faz nada para combater essa lacuna”, sustenta Joana Abreu. “A ideia é as pessoas olharem e perceberem que falta ali alguma coisa e que algo novo está ali, fazê-las parar e olhar. Depois continuam o seu percurso e levam uma mensagem consigo. Quero também quebrar as rotinas visuais que temos pela cidade”, acrescenta a designer.

No ínicio ainda contava as intervenções. Agora confessa que já lhe perdeu a conta. “Entre Porto e Lisboa são à volta de umas 70. Com o tempo acabam por sair, agora terei umas 30”, diz a valonguense.  Tem também alguns azulejos em Braga, em Paris e Marraquexe (fruto de viagens realizadas) e não esconde que gostava de expandir o projecto para outros locais, como Aveiro ou Guimarães.

O Preencher Vazios vive muito das redes sociais, como o Facebook e o Instagram, onde Joana acaba por acompanhar o estado das suas intervenções sempre que as pessoas partilham imagens em que identificam a hashtag do projecto (#preenchervazios). “Vou recebendo muitas mensagens a dizer que o projecto é muito giro e que gostavam de vê-lo noutras cidades. Quando fiz este projecto achava que era para a tese e que quando acabasse ficava por ali, mas quis continuar com ele e até agora tem corrido muito bem. Tenho muitas fachadas ainda para fazer”, garante.

Gostava de deixar a sua marca em valongo

Pelo interesse suscitado tem realizado workshops em que ensina a fazer os azulejos de madeira. “As pessoas gostam muito. O mais interessante é quando vamos colar, porque nunca se sabe as reacções que as pessoas vão ter. À os que param curiosos e perguntam e outros que não perguntam nada e eu depois explico o que estamos a fazer. Essa é a parte gira”, conta a jovem que se apropria do espaço, sem grandes pedidos ou autorizações. “Eu colo e vou-me embora. Quero surpreender quem mora lá. Mas, muitas vezes, também explico que é uma intervenção efémera e que vai acabar por sair”, salienta.

No início as intervenções duravam pouco. A primeira que a marcou foi a que eternizou uma frase de Agustina Bessa Luís em Cedofeita: “O Porto não é um lugar, é um sentimento”. “Achei que ia durar duas semanas ou três porque é uma rua com muita gente, mas esteve lá uns sete meses. A frase é tão forte e diz-nos tanto que ninguém lhe tocou”, acredita.

Joana Abreu tem um ateliê, no Porto, onde trabalha como designer e produz convites e lembranças para casamentos. Também vende alguns produtos com base no projecto, como agendas, imanes ou brincos, participa em feirinhas e aceita encomendas personalizadas de azulejos com frases para as pessoas colocarem nas paredes de casa.

Em Valongo, ainda não interveio porque são poucos os vazios a preencher. “As fachadas estão direitinhas”, diz com orgulho. “Mas gostava de deixar a minha marca no concelho”, comenta.

Por Miguel Sousa publicado in Verdadeiro Olhar

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